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quarta-feira, 13 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28015: S(C)em Comentários (89): Sem proteína não se faz a guerra... A propósito do hipopótamo (e do macaco-cão) que o PAIGC diizimou...


Guiné > Região de Cacheu  > São Domingos > CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) > 11 de dezembro de 1968 >  Um hipopótomo que apareceu morto no rio São Domingos, afluente do rio Cacheu


Foto (e legenda): © Virgílio Teixeira (2018). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. A nossa tropa não caçava hipopótamos. O PAIGC, sim. Dizimou-nos no rio Corubal (durante a guerra e depois). A carne e a gordura (além do couro...) eram recursos importantes no mato... 

Não se faz a guerra sem proteína. A fome era negra (sem conotação racista)... Havia milhares de bocas a alimentar na bacia hidrográfica do rio Corubal... 

O macaco-cão (e, em menor grau, o hipopótamo) deveria ser considerado também "Herói da Liberdade da Pátria", talvez até com mais mérito do que outras figuras controversas do PAIGC. 

"Do nosso lado", só esporadicamente lá se caçava um hipótomo ou outro,  que fazia "asneiras" (invadia os campos de arroz, era uma autêntica "bulldozer"...). Os caçadores eram locais. A tropa quando muito podia ajudar a  "rebocar" o bicho... 

Um hipopótamo adulto pesa, em média, entre 1,3 a 1,8 toneladas, com os machos podendo atingir pesos superiores, frequentemente passando as 3 toneladas. Os machos mais velhos podem chegar a mais de 3,6 mil kg (havendo registos excecionais de até 4,5 mil kg).

Comparando com uma vaca dos fulas, da raça N'Dama (pesando em média 250 kg e dando 50 % de carne limpa), um hipopótamo médio (1,5 mil kg) equivalia a uma meia-dúzia de vacas, com a vantagem de também dar também muita gordura. O problema devia ser a sua conservação. A carne devia ser seca ao sol ou então defumada.

Temos fotos de hipótomos que apareceram mortos. Talvez por doença ou pesca com granadas de mão. No Cacheu (Vd. foto acima).

No Rio Geba, nunca os vi no meu tempo (em 1969/71). No rio Corubal ouvi-os á distância. 

Quanto ao hipopótamo-pigmeu (Choeropsis liberiensis) (**) é considerado extinto na Guiné-Bissau há cerca de 50 anos, com os últimos registos a remontarem ao final da década de 1950. Embora nativo da África Ocidental, a sua presença atual restringe-se à Serra Leoa, Guiné-Conacri, Costa do Marfim e Libéria, preferindo florestas densas. Não deve ultrapassar em média os 200 kg.

Luís Graça (***)

quarta-feira, 13 de maio de 2026 às 07:40:30 WEST
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Notas do editor LG:


,(*) Vd. poste de 11 de dezembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19278: Álbum fotográfico de Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (São Domingos e Nova Lamego, 1967/69) - Parte LV: O hipopótamo que apareceu morto no rio São Domingos, afluente do rio Cacheu, precisamente há 50 anos

(Comentário de Virgílio Teixeira)

(...) Luís, há uns anos atras um condutor do meu batalhão, confidenciou-me, por isso não cito nomes, porque também não vi, mas acredito piamente, que um oficial superior do batalhão ia à pesca de madrugada, no rio São Domingos, afluente do Cacheu, lançava granadas ali bem perto do cais, e não faltava peixe. 

Um dia, num barco Zebro, com outros 2 condutores, teve uma sorte, ou azar, porque o barco onde iam a lançar as granadas, foi levantado ao ar por um hipopótamo. Salvaram-se todos e nunca mais foram, e os pormenores não interessam aqui, mas dá para perceber. 

Talvez este hipopótamo, frequente nestes rios, onde eu tantas vezes andei, tenha sido morto pelas tais granadas. Eu nunca vi um animal destes vivo, só este morto. Ponto. (...)

terça-feira, 11 de dezembro de 2018 às 22:54:00 WET

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28012: Timor-Leste: passado e presente (34): a revolta de Manufai (dez 1911 / out 1912) - Parte I




"Um contingemte de soldados de artilharia e infantaria embarcou no África com destino a Moçambique, a fim de que possam ser destatacadas forças d'aquela provínica para Timor, onde os régulos fizeram há pouco um movimento de revolta que as nossas autoridades sufocaram, sendo necessário, todavia, assegurar ali  com a presença de tropas mais completa tranquilidade.

"É sobretudo na região d' Oecússi que é maior a agitação provocadas por medidas políticas para o régulo  [Boaventura Boaventura da Costa Sottomayor], cujo pai  [Duarte da Costa Sottomayor ] foi um tão dedicado amigo de Portugal que seus filhos foram educados à custa do governo na colónia de Macau"


Legendas: 1 - No tombadilho do Africa os soldados da coluna. | 2 - Os oficiais da coluna ao centro o comandnate, tendo à direita os srs. tenente Ribeiro da Fonseca e alferes Cidrães e à esquerda os srs. tenente Domingos Vicente e alferes Cabeçadas. |  3 - A despreocupação dos soldados expedicionários. | 4 - A coluna formada antes do embarque. | 5 - O embarque das tropas. - Clichés de Benoliel.

Fonte: Ilustração Portuguedsa, 2ª série, nº 325, 13 de maio de 1912, pág.640 (Cortesia de Hemeroteca Digital / Câmara Municipal de Lisboa)





Pélissier, René — Timor em Guerra: a Conmquista Portuguesa (1847-1913). Lisboa: Editorial EstampA, 2007, 512 pp.


Simopse: "A partir do estudo de fontes portuguesas e holandesas, a obra analisa, nomeadamente, mais de cinquenta campanhas e expedições, necessárias à Monarquia e à Primeira República para que os guerreiros timorenses se tornassem súbditos portugueses.

"Neste livro, o leitor ficará a saber como o governador José Celestino da Silva (1894-1908) foi o grande aniquilador da resistência dos «reinos locais» e um «precursor» da unidade luso-timorense. O que não impediu a eclosão e o esmagamento assaz sangrento da última grande revolta (1911-1912) contra a Administração colonial.

"Sem maniqueísmo e com uma atenção aos pormenores inigualada até hoje, esta obra faz cair por terra alguns mitos relativos à presença portuguesa na Oceânia."





Timor Leste > Parque Dom Boaventura. Comemoração,  dos 20 anos do referendo sobre a independência da Indonésia (1999-2019), e centenário da revolta de Manufai.

A estátua (gigante)  de Dom Boaventura foi inaugurada em 23 de novembro de 2012, por ocasião da comemoração do 37° Aniversário da Proclamação da Independência (28 de Novembro de 1975 – 28 de Novembro de 2012) e do 1o. centenário da Revolta de Manufai ( 1912-2012), liderada por Dom Boaventura ( que terá morrido no desterro, em Moçambique).

Foto: cortesia de Wikimedia Commons (editada pelo Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, 2024)



1. No tempo da República, Timor era, como as restantes colónias portuguesas, parte integrante de Portugal (segundo o artº 2º da Constituição de 1911). 

TÍTULO I - DA FORMA DO GOVERNO E DO TERRITÓRIO DA NAÇÃO PORTUGUESA 

ARTIGO 1.º A Nação Portuguesa, organizada em Estado Unitário, adopta como forma de governo a República, nos termos desta Constituição.

ARTIGO 2.° O território da Nação Portuguesa é o existente à data da proclamação da República.

 § único -  A Nação não renuncia aos direitos que tenha ou possa vir a ter sobre outro qualquer território. (Fonte: Assembleia da República)

A desastrosa, precipitada, mal planeada e sangrenta participação de Portugal na I Guerra Mundial, foi justificada pelos políticos da República como o  imperioso dever do país face ao imperalismo alemão que olhava, com olhos de ave de rapina, territórios como Angola e Moçambique.  

Em contrapartida, Timor ficava longe da Europa e podia ter menos interesse para as grandes potências coloniais, com exceção da Holanda (hoje Países Baixos)...

A República (1910-1926)  sempre defendeu, para as colónias, um modelo de descentralização administrativa e financeira, com recurso a um Alto Comissário ou governador. 

A instabilidade política, militar, social e económica da República não permitiu o aprofundamento e aperfeiçoamento do modelo. (Em 16 anos, houve 45 Governos e 2 Juntas, incluindo governos de um só partido, coligações e governos militares; 8 Presidentes da República Eleitos pelo parlamento, com grande instabilidade no cargo;  refira-se ainda a elevada rotatividade dos governos e a grande crispação política, para além da participação na I Grande Guerra, crise económica, social e sanitária, etc.)

Com a  Ditadura Militar (a partir de 1926) e o Estado Novo (a partir de 1933), há um claro retrocesso na autonomia administrativa e financeira das colónias.  O Acto Colonial (1930) vai ser integrado na Constituição de 1933. É o triunfo da perspetiva imperial na relação metrópole-colónias.

A relação da República com Timor e os timorenses também não será pacífica, em parte por inabilidade dos republicanos... 

Há a  "revolta indígena"  de Manufai (1911/12),  cuja história merece ser melhor conhecida dos nossos leitores. Ocorreu  durante o governo de Filomeno da Câmara Melo Cabral (o primeiro governador republicano, 1911/13  e 1914/17). (Nasceu em Ponta Delgada, em 1873, e morreu em Lisboa, em 1934; foi governador, controverso,  de Timor em dois períodos, 1911-1913, e 1914-1917; na sua última comissão, em 1915, foi promovido a capitão-tenente.)

O território (do que é hoje Timor Leste) estava  dividido em 71 reinos, cada um com o seu liurai e a sua pequena corte e o seu pequeno exército!...  
 
Houve  causas próximas para explicar a revolta de Manufai de 1911/12, e  que seria uma réplica da iniciada em 1895 (ao tempo do governador Celestino da Silva).

 Desta vez foi iderada por Dom Boaventura da Costa Sottomayor, filho de Dom Duarte da Costa Sottomayor:

(i) A mudança de regime em Portugal (1910) e a imposição da bandeira republicana (verde e vermelha):    foram vistas como uma ruptura de um pacto simbólico com a Coroa, a quem muitos liurais, como Boaventura, juravam lealdade; a bandeira monárquica (azul e branca) era vista como sagrada e associada a uma relação de vassalagem direta com o rei de Portugal, não com o presidente da República; os timorenses davam (e ainda dão) muita importância a símbolos nacionais como a bandeira:  a sua lealdade ia para o rei e para a bandeira "azul e branca" da monarquia, que de repente  é substituída  (em 29 de novembro de 1910); durante a revolta, o "gentio" amotinado, sob o comando de Dom Boaventura, usaram a bandeira monárquica como emblema de luta, reforçando a ideia de que estavam a defender não só os seus direitos seculared, mas também uma relação histórica com Portugal que a República havia rompido;

(ii) a ambiguidade e a instabilidade da transição política foram aproveitadas  pela Holanda (uma monarquia)  para incitar os timorenreses à revolta contra os "novos senhores" da metrópole, e pôr em causa as fronteiras do território;

(iii) a substituição da "finta" pelo "imposto de capitação " (equivalente ao "imposto de palhota" na Guiné) vem afetar os poderes gentílicos, semifeudais,  limitando o poder discriconário dos "régulos" (ou "liurais"), 

(iv) o recrutamento forçado de trabalhadores ("corveia") para as plantações de café e algodão;

(v) a proibição do abate de árvores de sândalo e de animais para rituais tradicionais; 

(vi) a resistência (aberta)  à autoridade colonial portuguesa, que procurava consolidar o controlo sobre as estruturas tradicionais de poder timorenses;

(vii) a escassa presença militar portuguesa no território (agravada pela longa distância,por via marítima, entre Lisboa e Díli, funcionando Moçambique como uma espécie de entreposto ou base recuada);

Não temos elementos para perceber  o papel da Igreja Católica, que, em alguns casos, era vista como aliada dos portugueses, mas também como mediadora entre as populações locais e o poder colonial; a igreja, nesta época, era claramente antirrepublicana, e o jesuitas tinham sido expulsos, ainda em 1910, do território.

O aumento do imposto de capitação (a "finta" ou "imposto e cabeça") e o arrolamento de coqueiros e gados, a principal riqueza dos timorenses), a par da proibição do corte de árvores de sândalo (prática sancionada com multas), serão talvez  as razões mais visíveis que levam a despoletar a revolta de Manufai.

A partir do reino de Manufai, a revolta conquista grande adesão das populações e levará mais tempo a ser debelada. 

A revolta foi militar, tendo sido subjugada por uma conjugação de forças que envolveu:
  • militares portugueses metropolitanos;
  • militares provenientes das colónias portuguesas (de Goa, de Macau e principalmente de Moçambique,  os "landins").
  • e, sobretudo, aliados dos reinos timorenses.
As forças africanas e nativas correspondiam a 88% dos efetivos militares envolvidos, segundo o historiador René Pelissier (2007).

A resposta foi militar, com o envio de tropas  oriundas da metrópole. A artilharia fez grandes razias. Aldeias inteiras são arrasadas. As baixas entre os revoltosos vão reflectir-se mais tarde na demografia do território. Fala-se em 5 mil a 20 mil mortos, números difíceis (ou impossíveis hoje) de confirmar. 

A par disso, e como seria de prever, a forte repressão vai agravar as relações entre colonizados e colonizadores... 

Aponta-se como  início formal da revolta o dia 24 de dezembro de 1911, domingo, véspera de Natal . Essa data marca o ataque ao posto de Same: o primeiro-tenente Luiz Alvares da Silva, da marinha, é  morto e decapitado, à frente da mulher.

A guerra vai decorrer até meados de 1912 num movimento de cerco e aniquilamento das forças rebeldes, acabando de levá-las à rendição. Todavia, o destino do líder da revolta ainda hoje é controverso: terá sido  poupado e desterrado para Moçambique.

O Estado vai anexa terras dos vencidos (caso da futura Sociedade Agrícola Pátria e Trabalho). O poder dos "liurais" passou a ser mais simbólico, mas mesmo assim o governador Filomeno da Câmara soube depois imprimir uma dinâmica de desenvolvimento e pacificação efetiva do território, política que será prosseguida com algum êxito até à II Guerra Mundial.

O triunfo das autoridades portuguesas e seus aliados vai marcar a consolidação da até então precária soberania  em toda a parte oriental da ilha.( A delimitação da fronteira só fica resolvida em 25 de junho de 1914, com a decisão do tribunal de Haia sobre o diferendo relativamente ao enclave de  Oecússi-Ambemo: a demarcação no terreno só vai acabar em abril de 1915.)

A revolta do régulo de Manufai será o último dos grandes levantamentos contra a autoridade colonial. E tende hoje a ser vista como uma "revolta protonacionalista", de cariz anticolonialista, "avant la lettre" (Figueiredo, 2003).

 
Carlos Bessa (2004, pág. 333) tirou deste período trágico da história de Timor  (e de Portugal) a  seguinte conclusão:

(...) A nobreza nativa sairá muito enfraquecida destas campanhas, mas, mesmo assim, a autoridade portuguesa continuou a não pretender ser mais do que superestrutura aglutinadora e arbitral das autoridades nativas dos vários reinos, embora se tornasse marcante factor de identidade e unificação política através da influência de uma cultura luso-timotense e do catolicismo,  contrapostos ao islamismo e à influência calvinista holandesa excercida na restante Indonésia, do que resultou o tão impressionante e conhecido culto dos Timorenses pela bandeira portuguesa".
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Bibliografia:

Bessa, Carlos : "Timor Do Domínio Liurai à Pacificação Portuguesa", in Manuel Themudo Barata e Nuno Severiano Teixeira, ed. lit - Nova Históriaa Militar de Portugal. Vol. 3. S/l: Círculo de Leitores.  2004. 323-333.

Figueiredo, Fernando Figueiredo, "Timor (1910-1955), in: "História dos Portugueses no Extremo Oriente", 4º volume: Macau e Timor no Períod0 Republicano", dir. A. H. de Oliveira Marques, Lisboa: Fundação Oriente, 2003, pp. 521-575.


Pélissier, René — Timor em Guerra: a Conmquista Portuguesa (1847-1913).                            Lisboa: Editorial EstampA, 2007, 512 pp.

  
Pesquisa: LG + Bibliografia + Wikipedia + IA (Le Chat Mistral AI | ChatGPT Open AI)

(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, links, parênteses retos: LG)

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quinta-feira, 7 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27994: Em bom português nos entendemos (32): Ainda a papaia e o mamão: são da mesma espécie botànica, frutos da Carica papaya, ...mas de variedades diferentes



Guiné-Bissau > Bissau > Quintal do "nosso embaixador" Patrício Ribeiro > Abril de 2026 >  Uma papaieira (árvore caricácea que produz a papaia, nome científico Carica papaya).  uma linda papaia madura (parece-nos, pela cor): impensável ser exposta, para venda, na banca de qualquer grande superfície cá do "Puto"... É como a batata-raiz-de cana, feia, rugosa, de olhos virados para dentro, difícil de cascar (aliás, coze-se com a pele),  "anormal",  por isso, "perdeu valor comercial" e deixou-se de cultivar... Mas hoje é produto "gourmet". O mercado é cruel... para os "pobres, anormais, feios, porcos e maus"...

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]






Papaia é a mais pequena, mamão a maior... são variedades da espécie Carica papaya... 

Foto (e legenda): © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Papaia ? Mamão ? Ou papaia e mamão  ? Vejamos a prova dos nove: o mercado é que faz os preços... e a língua as palavras.  Mas a ciência tem também uma palavra a dizer Neste caso,  a botânica...

De qualquer modo, nada como ir ao sítio  onde se compra e venda estes frutos tropicais... que vêm do outro lado do Atlântico, o Brasil, o 2º maior produtor mundial (com destaque para os estados do Espírito Santo e Bahia).

O dicionário (por exemplo, o Houaiss da Língua Portugesa) diz que é tudo a mesma coisa, são frutos da Carica papaya, espécie nativa do sul do México e América Central. E está correto, do ponto de vista botânico. 

A principal diferença está no tamanho e em pormenores como a forma, o sabor e a cor. No Brasil chamam mamão formosa ao fruto maior, e mamão papaia ao mais pequeno. O fornecedor é a Ftutana, uma conhecida grande empresa grossista do Brasil.

Em Portugal, o termo mamão designa as variedades maiores de Carica papaya (como o grupo Formosa). Ao fruto mais pequeno, em forma de pera, chama-se papaia propriamente dita (ou do tipo Solo). 

Em Angola e Moçambique, o termo papaia é mais comum, enquanto no Brasil domina o vocábulo mamão.  Em Cabo Verde e Guiné-Bissau, usa-se a palavra papaia.  Nos PALOP  começou-se  a usar o termo mamão por influência brasileira.  De resto, também encontrei, no hipermercado,  mamão do Algarve, Mais pequeno que o brasileiro mas ao mesmo preço.

Duas curiosidades: 

(i) uma, histórica: a papaia foi levada para a África e Ásia pelos portugueses e espanhóis durante a era dos Descobrimentos (a primeira "autoestrada" da globalização); e,   hoje,  países como a Índia e a Tailândia são grandes produtores;

(ii) outra, botânica: a  Carica papaya é dioica (há plantas macho, fêmea e hermafroditas); os cultivares comerciais são hermafroditas (para produzirem frutos sem polinização cruzada).


2. Fui ao Auchan do Alegro, Alfragide, passe a publicidade, e constatei que, na banca da fruta tropical, havia, ontem, a seguinte oferta:

(i) mamão ("Papaya formosa", na etiqueta) (via aérea, Brasil) a 4,59 € / kg, pesando cada unidade cerca  de 1,4/1,7 kg;

(ii) papaia  (pequena, de tipo Solo) (via aérea, Brasil) a  4,79€ / kg, pesando cada unidade c. de 350/450 gr.

Há uma diferença de 20 cêntimos, que não sei explicar, e que pode ser apenas diária ( dependendo de campanhas de promoção,  aspeto da fruta, etc.).

Só compro papaia às vezes, para saladas... E em dias de festa... É um luxo, para mais num país como o nosso que tem tanta variedade e riqueza de fruta ao longo de todo o ano, da pera rocha aos figos, dos morangos às clementinas, do melão à melancia, das romãs às laranjas, das uvas às maçãs, das ameixas às castanhas, das nêsperas aos alperces, em esquecer as frutas subtropicais e até tropicais da Madeira e Açores, bem como do Algarve... (O abacate. por exemplo, está a tornar-se o "ouro verde" do Algarve, com exportações crescentes para a Europa; e a Alfarroba, camaradas ? O antigo "chocolate do pobre", que também era comido por burros e cavalos, é hojé produto "gourmet": antigamente, a alfarroba era usada como substituto do cacau, hoje é usada em chocolates finos, gelados e até cerveja.)

Voltando à papaia (e ao mamão)... Comparei, pesei... e fotografei. Não comprei, nem provei...

Os dicionaristas podiam aproveitar estas subtilezas da vida real (introduzidas pela globalização) e não dizer  apenas que a papaia e o mamão são sinónimos... Enfim, a língua é felizmente  sempre maior, mais complexa, mais dinâmica, mais viva,  mais rica que todos os  dicionários juntos.  A vida passa a perna aos lexicógrafos, aos dicionaristas, aos botânicos, aos produtores, aos grossistas, aos consumidores...

3. Por outras palavras,  o mamão (Carica papaya 'Formosa') não é uma espécie diferente, é apenas uma variedade (ou um grupo de cultivares) da espécie Carica papaya.

Botanicamente, tanto o mamão (grupo Formosa) como a papaia (mais pequena, muitas vezes chamada de mamão tipo Solo) pertencem todos  à mesma família, e  à mesma espécie: Carica papaya.
  • grupo Formosa: esta variedade distingue-se por ser maior e mais pesada (pode chegar aos 2kg ou 3kg), ter uma polpa mais firme e uma casca mais resistente, o que o torna ideal para transporte (casca mais dura, e por isso é mais exportada);
  • além do tamanho, mais alongado, tem polpa alaranjada e sabor suave;
  • o nome Formosa está ligado à ilha de Taiwan (antigamente chamada Formosa), onde foram desenvolvidos muitos dos híbridos que consumimos hoje, como o famoso Tainung nº 1.
A papaia (tipo Hawai) é menor, mais doce, e de polpa alaranjada.

4. A diferença é a mesma em relação, por exemplo,  à maçã bravo-de-esmolfe e a maçã reineta, são variedades distintas, embora ambas pertençam à mesma espécie botânica (nome científico:  Malus domestica Borkh).

Onde estão as deiferençsa ?  São cultivares (variedades) diferentes: a maçã bravo-de-esmolfe (DOP); é uma variedade tradicional portuguesa, autóctone da região de Penalva do Castelo, conhecida pela sua polpa branca, macia, doce e muito aromática; a maçã reineta é geralmente mais ácida, firme e muito utilizada na culinária.

Outro exemplo: o ananás e o abacaxi (que comiamos bastante na Guiné). A espécie é a mesma (Ananas comosus, nome científico). 

O ananás (dos Açores e da Madeira, por exemplo) é mais arredondado, cultivado em estufas, colhido ao fim de 18 meses: o da Madeira mais doce e aromático (cultivado em estufas de vidro) (DOP); o dos Açores, mais ácido e perfumado (cultivado em estufas de pedra vulcânica). (Parece haver uma rivalidade amigável entre as duas regiões autónomas sobre qual o melhor ananás do mundo...)

O abacaxi, cultivado ao ar livre em climas tropicais (como na Guiné-Bissau), é tipicamente mais doce e alongado, com polpa amarela.

Uma pergunta final ao leitor: se o mamão e a papaia (ou o ananás e o abacaxi) são a mesma espécie, porque é que o mercado os trata de forma diferente? Será que, no fundo, a língua e a economia são também 'cultivares' da mesma realidade?
(Pesquisa: LG + Net + IA / Le Chat Mistral AI)
(Condensação, revisão / fixação de texto: LG)
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quarta-feira, 6 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27991: Humor de caserna (262): O poeta Bocage (que foi oficial da marinha de guerra) e o Café Nicola, no Rossio, em Lisboa

Estátua em bronze do Bocage.
Café Nicola, Rossio, Lisboa.
Autor: Marcelino de Almeida
(1929)
1. Não sou bom a contar anedotas, ao vivo, à volta da mesa, numa roda de amigos... É uma arte, que não é para todos, inventá-las e sobretudo contá-las. Mas gosto de as reescrever e recriar... 

Esta, é mais uma do Bocage, que me foi contada,  se não erro,  na tropa ou já na Guiné. Nunca a  esqueci, passados  mais de 50 anos, o que é caso raro em matéria de repertório de anedotas. O meu é muito pequeno.

De facto, também não sou bom a lembrar-me das anedotas. Faltam-me sempre aqueles detalhes que dão o picante à(s) história(s)... É como os coentros nas ameijoas à Bulhão Pato ou nas favas soadas... ou o piri num franguinho grelhado.

Na altura já conhecia os célebres versos do "Calafate" ou "Cantador de Setúbal", sobre "A Quinta da Panasqueira",  publicados no poste P27990 (*), por via da célebre "Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica" (seleção, prefácio e  notas de Natália Correia, 1965), que li clandestinamente. (Não consegui apanhar a 1ª edição, vivia na província, o livro foi rapidamente confiscado, mas houve um amigo que teve a sorte de ficar com um exemplar.)

Neste caso, que vou reconstituir de cor, ainda hoje desato a rir pelo absurdo e caricato da situação. É uma anedota, caro leitor, que mete, com a sua licença,... m*rda. Logo, é humor... escatológico. Mas que tem perfeito cabimento na nossa série "Humor de Caserna". 

Só tem graça porque, além da dita m*rda, mete o Bocage, um botequim e uma ventoinha de teto (ou ventilador elétrico). 

Ora, este  equipamento (precioso num território como a Guiné, no nosso tempo, a par do frigorífico a petróleo) só será inventada em 1882, mais de 3/4 de século depois da morte do Bocage (1805). 

Portanto, há aqui um anacronismo: naquele tempo, nos finais do séc. XVIII, ainda não havia eletricidade, não podendo haver por isso ventoinhas (muito menos de teto)... Mas devia haver "buracos" para ventilação e respiradores, nos edifícios pombalinos...E isto passa-se na baixa pombalina, no Rossio...

De resto, as ruas da capital eram iluminadas por candeeiros a azeite, num sistema criado a partir de 1780  pelo intendente da polícia Pina Manique. (Depois do azeite, veio o petróleo, o gaz e finalmente a eletricidade; o funcionário camarário que acendia  e apagava os "lampiões", antes da iluminação elétrica,  eram os "vaga-lumes", popularmente mais conhecidos como "caga-lumes").

À parte o anacronismo, a anedota tem piada porque ilustra o talento de improvisador, de repentista, que a tradição oral atribui ao poeta sadino,  frequentador do Botequim do Nicola, no Rossio, em Lisboa.

O Botequim do Nicola (cuja fundação remonta a 1787, em pleno reinado de Dona Maria I (que vai de 1777 a 1815) era o centro das tertúlias intelectuais e conspiratórias de Lisboa. E das rusgas da polícia (Intendência-Geral da Polícia da Corte e do Reino, criada pelo Marquês de Pombal, em 1760). 

O Botequim (do italiano botteghino, diminutivo de bottega, loja), foi fundado por um italiano chamado Nicolau Breteiro, vulgo "Nicola". Posteriormente o negócio foi assumido pelo português José Pedro Silva, que manteve o nome do estabelecimento.

O cliente mais mais conhecido na época foi o nosso poeta, de seu nome completo Manoel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805), de ascendência francesa, cuja vida, aventurosa e boémia, mas também militar e literária,  ainda hoje está mal documentada: sabe-se, por exemplo,  que foi oficial da marinha de guerra, andou pela Índia e pelo Brasil, até começar a ter problemas com a Inquisição e a polícia do Intendente Pina Manique...  Viveu pobre, morreu miserável. E hoje ajuda a vender lotes de café em grão... "italiano"! 

Diz a tradição que José Silva, o proprietário do Botequim do Nicola, terá sido uma espécie de mecenas do poeta, apoiando-o na fase terminal da sua vida, com o poeta maldito já doente e pobre.


Retrato gravado a buril e água-forte
por Joaquim Pedro de Sousa (1818-1878). 
Fonte: Wikipedia

O Botequim, mais tarde Café Nicola, continuou a ser um ponto de encontro de escritores, jornalistas e políticos, atravessando vários regimes e épocas. Sofreu remodelações ao longo do tempo. Na II Guerra Mundial, foi um dos cafés de Lisboa onde se misturavam refugiados, escritores,  espiões e polícia política.

Em 1929, a fachada foi redesenhada pelo arquiteto Manuel Norte Júnior. Foi também inaugurada uma estátua do poeta, em bronze,  da autoria de Marcelino de Almeida. 

Em 1935, o interior foi modernizado em estilo Art Déco, pelo arquiteto Raul Tojal (1899-1969), com pinturas a óleo de Fernando Santos (1892-1965) que retratam cenas da vida de Bocage. 

Estas intervenções deram ao Nicola o aspeto que ainda hoje se pode admirar, sendo atração turística, "loja histórica" e património da cidade de Lisboa.

O Café Nicola, enquanto marca, também se expandiu: no fim do século XIX e início do XX, abriram filiais em várias cidades portuguesas (como Coimbra e Figueira da Foz), e hoje existem 13 cafés e quiosques com o nome Nicola em Portugal (incluindo a minha terra, Lourinhã). 
2. Mas vamos à anedota (*): num dia de calor, estava o Bocage no Nicola com o seu grupo de tertúlia, mesmo no centro da sala.

Entrou um sujeito, a correr, "muito à rasca" (sic), a perguntar ao empregado onde era a "caganeira"... "Ao cimo das escadas", respondeu maquinalmente o "garçon". O sujeito subiu as escadas já com as calças na mão. Mas, com a atrapalhação,  não deu com a retrete. Aliviou-se no primeiro buraco que encontrou...

Desceu as escadas, mais descontraído, e a assobiar, enquanto ajeitava calmamente as calças e a jaqueta... Mas, para seu espanto, havia um reboliço enorme de mesas e cadeiras, com os clientes a fugirem para a rua, aos berros.

O cheiro tornou-se insuportável e, ao sentir o odor, e sobretudo ao levar com os salpicos de m*rda na cara, no cabelo e na camisa (branca) de janota, o Bocage levantou-se de um salto e declamou, alto e bom som, em cima de uma mesa, estes versos em redondilha maior que ficaram para a história:

Pelo  cheiro não é fruta,
Nem p'la cor é farinha,
Quem foi o filho da puta
Que cagou na ventoinha?!
______________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 5 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27990: Humor de caserna (261): "Apalpar a fruta" (neste caso, a "papaia"...)

sábado, 11 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27912: O segredo de... (53): Luís Graça: a ida de Bambadinca ao Xime, de Daimler (uma "lata de sardinhas com 4 rodas"...) para ir beber um copo, a um mês da peluda... (Não, nunca te contei esta, Zé Luís Vacas de Carvalho!)


Foto nº 1 > Guiné > Zona Leste > Sector L1 (Bambadinca)  > Xitole > c. meados de 1970 > Coluna logística ao Xitole... Pessoal em cima de uma Daimler, do Pel Rec Daimler 2206 (Bambadinca, 1970/71). Da esquerda para a direita: O Fur Mil Op Esp Humberto Reis (CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71), o Alf Mil Cav J. L. Vacas de Carvalho, comandante do Pel Rec Daimler 2206 (Bambadinca, 1969/72), o Fur Mil Enf Coelho (CCS /BART 2917, Bambadinca, 1970/72) e, por fim, o Fur Mil At Inf  Arlindo T. Roda (CCAÇ 12)

Foto: © Humberto Reis (2006 Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Foto nº 2 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Pel Rec Daimler 3089 (Teixeira Pinto, 1971/73) > Fevereiro de 1973 > Chegada de Caió. Na segunda fotografia é visível o 1º cabo apontador Manuel Lucas.


Foto nº 3A > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Pel Rec Daimler 3089 (Teixeira Pinto, 1971/73) > Fevereiro de 1973 > Chegada de Caió. 


Foto nº 3 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Pel Rec Daimler 3089 (Teixeira Pinto, 1971/73) > Fevereiro de 1973 > Chegada de Caió. 

Fotos (e legendas): © Francisco Gamelas (2016). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Em louvor das suas velhas Daimlers, saltitonas mas operacionais, que ele punha sempre num brinquinho (graças à prática do "canibalismo" mecânico...), escreveu, em verso, o Francisco Gamelas, cmdt do Pel Rec Daimler 3089 (Teixeira Pinto, 1971/73):

(...) Rolando sobre a estrada
a abrir e a fechar
colunas civis ou militares,
éramos a força esperada,
metralhadora pronta a cantar
ao desafio os seus cantares.

"Impunham algum respeito
estas massas de ferro circulante,
armadas e brutas,
nem que fosse pelo efeito
grotesco de velho ruminante,
sobrevivente de esquecidas lutas. (...)

" 'A sorte protege os audazes', 
assim rezava a divisa dos comandos.
A sorte protege quem tem olhinhos,
respondiam, entre dentes, mordazes,
os soldados de costumes brandos,
para quem os tomavam por anjinhos.


In: Francisco Gamelas - Outro olhar: Guiné 1971-1973.
Aveiro, 2016, ed. de autor, pp. 29-31 (Reproduzido com a devida vénia).


2. Já aqui confessei que tinha uma grande "ternura" pelas Daimlers e o seu pessoal... Em Bambadinca apanhei "cavaleiros" excecionais,  bons amigos e camaradas, como o Jaime Machado (Pel Rec Daimler 2046, 1968/70) e o Zé Luís Vacas de Carvalho (Pel Rec Daimler, 2206, 1970/72) (foto à direita).


E vou confessar um "pecado" (*), que não é "mortal", é apenas "venial", como diria a minha jovem e muito querida catequista por quem tive uma paixão assolapada nos meus 8/9 anos..

Um dia, já completamente "apanhado do clima", lá mais para o fim da comissão, depois de ter apanhada a mais infernal embocada (Op Abencerragem Candente, Xime, 26/11/1970) e a mais brutal mina A/C, sete semans depois (Nhabijões, 13/1/1971) consegui convencer um dos homens do J. L. Vacas de Carvalho a ir ao Xime... Ali a 12/14 km, a sudoeste de Bambadinca...

Para fazer o quê?  Matar o tédio, beber um uísque ou uma bazuca (um garrafa de 0,66 l de cerveja), "queimar os últimos cartuchos"... Já cheirava a "peluda", oxalá, enxalé, insh'Allah, os nossos "periquitos" chegassem, depressa, sãos e salvos ao porto fluvial do Xime... e depois a Bambadinca  (Felizmente, vieram todos, com exceção do 1º cabo cripto.)

A estrada Bambadinca - Xime estava em construção, em vias de ser asfaltada (nesse ano de 1971)  e nós, CCAÇ 12, montávamos segurança à empresa TECNIL (que será mais tarde a do António Rosinha, já sob o regime de Luís Cabral, e do senhor da guerra que se lhe seguiu, o 'Nino' Vieira,  entre 1978 e 1993)... 

Havia um pelotão da CCAÇ 12, junto às máquinas e aos trabalhadores... Mas em 12/14 km havia sempre, teoricamente, o risco de minas e emboscadas, nomeadamente na Ponta Coli, depois do destacamento do rio Udunduma (outro "petisco" que também nos calhava, de vez em quando...)

Eram 12/14 km para lá e outros tantos para cá... E ainda levei o Tchombé, que era a nossa mascote, um puto de 4/5 anos, adotado por nós, a malta da messe de sargentos da Bambadinca... Eu, o Tchombé e o condutor, metidos numa "lata de sardinha com 4 rodas" (não me levem a mal, camaradas da cavalaria, é uma "metáfora")...

Pequenas / grandes loucuras, quem não as fez, com 23/24  anos, no teatro de operações da Guiné? Eu tinha feito 24 anos, em 29/1/1971.  Se a memória não me trai, esta pequena bravata deverá  ter ocorrido em meados de fevereiro de 1971, a um mês de regressar à grande metrópole que nos esperaria com fanfarra e foguetes, no cais da Rocha Conde de Óbidos (imaginavam alguns, eu não)...

Julgo que nunca contei esta ao Zé Luís, o lídimo represente de um numerosa família de agrários, pegadores de touros, fadistas e grandes combatentes, que eram os Vacas de Carvalho de Montemor-O-Novo... E espero que ele me perdoe...

Ou será que o condutor era ele mesmo? Não juro, nem acredito, mas era menino para "alinhar"... Tinha (tem, ainda está felizmenmte vivo..) alma e voz de boémio e fadista e sobretudo o "grãozinho de loucura" que era preciso para viver (e sobreviver a) quase dois anos de mato. 

Apesar de ele ser de cavalaria, a "aristocracia" da Spinolândia, também alinhava com os "infantes", "nharros" de 1ª classe... Umas voltinhas até ao fundo da pista de aviação, as idas diárias (ou quase) a Bafatá, a colunas logísticas a Mansambo, Xitole e Saltinho (essas bem mais duras)...


Luís Graça
Mas, não, não era ele... o condutor... Nem sei se ele, comandante de Daimlers, tinha carta de condução daquela "lata de sardinha de quatro rodas", que foi uma  heroína da batalha de El Alamein, os "ratos do deserto"   contra "a raposa do deserto", na II Guerra Mundial (**)...


3. Abreviando a história do meu "desenfianço" por duas ou três horas, no Xime: o apontador da metralhadora foi dispensado, eu tomei o lugar dele; não cabíamos todos na "lata de sardinhas de 4 quatro rodas"...

Paguei eu a despesa no bar do Xime ao condutor, que bebeu uma "bazuca", e ao "djubi" Tchombé, que adorava a "laranjina C". 

E devo ter pago, ainda à pala dos meus anos,  uma rodada aos camaradas da CART 2715, que comigo fizeram a Op Abencerragem Candente, de trágica memória... 

Não devo ter bebido cerveja (não era minha bebida habitual), mas um uisquinho com água de Perrier e uma pedra de gelo (supremo luxo!).

E regressámos a casa, ou seja a Bambadinca, mais à tardinha, pela fresca, no "nosso descapotável"... Sem acidentes nem incidentes de  maior... Orgulhosos, de mais uma "missão cumprida"...

Estou a imaginar a "porrada" que levaria se as coisas tivessem dado para o torto... Mas nessa altura o troço em construção, Bambadinca-Xime (já quase pronto para levar o asfalto) era todo nosso, e os "gajos" do PAIGC, donos da margem direita do Rio Corubal, pensavam duas vezes antes se meteram com os "nharros" (brancos e pretos) da CCAÇ 12...

As "nossas" Daimlers, que andavam, no CTIG,  sem a "torre", podiam ser um "bocado de lata", mas davam-nos sempre um certo "conforto" nas nossas colunas logísticas... Ou até na simples e rotineira viagem a Bafatá, por estrada alcatroada (30 km), que era o nosso dia de glória ("comer o ovo a cavalo com batatas fritas" na Transmontana, "dar dois dedos de conversas na loja das libanesas", "mudar o óleo no Bataclã", "rezar na catedral", "fazer umas compritas na Casa Gouveia!", "dar um mergulho na piscina municipal", enfim, "respirar a civilização cristã e ocidental da Princesa do Geba"...).

E,  como eram "bailarinas" as nossas Daimlers, nunca as vi atascadas, nem nunca nos deixaram mal, mesmo com os pneus carecas... e a crónica falta de peças sobressalentes. Parte delas já no cemitério da sucata em Bambadinca...

Glória a elas, as nossas velhas Daimlers de Bambadinca, do Jaime Machado e do Zé Luís Vacas de Carvalho!... E que Deus, Alá e os Bons Irãs nos perdoem essas pequenas bravatas, pueris, mas humanente compreensíveis...
_______________

Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 1 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27374: O segredo de... (52): Luís Graça & Humberto Reis (CCAÇ 2590 / CCAÇ 12, Contuboel e Bambadinca, mai 69 /mar 71): Op Noite das Facas Longas, em que nem o pobre do "Chichas", a nossa mascote, escapou do tiro na nuca...

(**) "Daimler Armoured Car": foi um dos veículos blindados de reconhecimento mais importantes e eficazes do Exército Britânico durante a Campanha do Norte da África na Segunda Guerra Mundial, sendo amplamente utilizada pelos famosos "Ratos do Deserto" (7ª Divisão Blindada) e outras unidades, como a 11ª Hussardos, na decisiva Batalha de El Alamein em outubro/novembro de 1942.
 
Aqui estão os detalhes-chave sobre a sua importância e papel:

(i) desempenho e fiabilidade: itroduzida em 1941-42, a Daimler substituiu veículos menos capazes, como o Marmon-Herrington; era conhecida pela sua excelente performance todo-o-terreno, fiabilidade e blindagem robusta (até 30 mm), superior às alternativas alemãs de reconhecimento;

(ii) armamento: estava equipada com um canhão de 2 libras (40 mm) na torre, além de uma metralhadora Besa de 7,92 mm, tornando-a capaz de enfrentar outros veículos blindados ligeiros e posições de infantaria;

(iii) design avançado: possuía tração às quatro rodas, suspensão totalmente independente e, notavelmente, um volante de direção traseiro para que o comandante pudesse conduzir em marcha-atrás rapidamente para escapar de situações difíceis;

(iv) velocidade: podia atingir , no máximo, os 80 km/h (em estrada alcatroada...);

(v) papel em El Alamein (Outubro/Novembro 1942):  e
mbora não fossem os principais carros de combate, as Daimlers da 11ª Hussardos e outras unidades do 8º Exército de Montgomery lideraram o reconhecimento, localizaram rotas, interceptaram comunicações e capturaram prisioneiros durante a retirada das forças do Eixo; a sua capacidade de operar de forma autónoma a longas distâncias foi crucial para o sucesso da ofensiva aliada que marcou o ponto de viragem na África.

Em conclusão, a "Daimler Armoured Car" foi considerada um dos melhores veículos blindados de combate britânicos da guerra, permanecendo em serviço até aos anos 60.

(Pesquisa: LG + Wikipedia + IA)
(Condensação, revisão/fixação de texto: LG) 

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27902: Manuscrito(s) (Luís Graça) (287): Foi você quem pediu uma Kalashnikov ?


Lisboa > Rio Tejo > 5/11/2011 > Pôr do sol no Atlântico, visto do estuário do Tejo, em Belém, junto ao Museu do Combatente (Forte do Bom Sucesso). Uma feliz coincidência, um porta-contentores apanhado pela objectiva do fotógrafo "just in time".

Foto (e legenda): © Luís Graça (2011). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]





Guiné > Zona Oeste > Região do Oio > Mansoa > BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) > O capelão e a "bela Kalash".. Foto do álbum do Padre José Torres Neves, antigo capelão militar.


Foto (e legenda): © José Torres Neves (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]O capelão e a "bela" Kalash...



1. Tenho um poema de 2015 em que ironizo a "kalashnikovomania" ... Declaração de interesse: nunca a usei nem desejei... a maldita AK 47.



 Foi você quem pediu uma Kalash ?

por Luís Graça


Há uma luz difusa,
mistura de ternura e de saudade,
quando o sol se põe em Lisboa,
e tudo à volta é a humanidade que arde.

Impensável o fado da idiossincrasia lusa
sob o céu de chumbo de Atenas ou o smog londrino.
Impensável, ou improvável apenas,
oh poeta cretino!

Porque de pias intenções, maus pensamentos
e piores ações está o inferno da história cheio,
as praças, do Comércio ao Rossio,
e os marcos do correio onde apodrecem aerogramas de guerra.

Ah!, o bravo Ulisses, o grego,
o que ele andou p’ra aqui chegar,
depois de transpostas as colunas de Hércules,
até fundar a mítica cidade atlântica de Olissipo.

Ah!, a Lisboa, que os poetas  amaram
e onde afinal nunca foram amados,
do Cesário Verde ao Álvaro de Campos,
do Camões ao O'Neil.

Ah!, Lisboa, Lisboa,
com as tuas casas de muitas cores, caiadas de branco.

Chora, e não é de medo, o judeu sefardita,
a sua desdita, cristão novo, marrano,
a caminho do degredo:

─ Ai!, a doce luz de Lisboa,
filtrada pelo espelho de água do Tejo,
mais o pôr do sol sobre o Atlântico Norte
que começa no Bugio.
Não sei se estarei cá, p’ró ano,
que a vida e a morte
são jogos de azar e de sorte.
Só sei que o que sinto, é já saudade,
porque… é arrepio!


No tempo em que a terra era plana,
antes das viagens de circum-navegação,
não podias tu imaginar o novo mundo
e Copacabana, 
lá ao fundo, 
mais as cataratas de Iguassu,
Darwin e a teoria da evolução,
e o tu-cá-tu-lá de deus com a ciência.

Muito menos a crioula e o seu cretcheu,
o tango, o flamengo, o fado,
o dundum, a coladera,
o samba, a morna,
o lançado, o tangomau,
o escravo do Cacheu,
e a santa paciência
com que a gente vive, morre e não retorna.

Chama-lhe o que quiseres,
mas tens uma dívida de gratidão à Grécia antiga,
ao Homero, ao Platão,
à bela e pérfida Helena de Troia,
ao ateniense e ao espartano,
aos deuses e deusas, estas tão mundanas, do Olimpo…
Que serias tu, sem o Ícaro,
mas também sem a boia nem o  colete de salvação ?!

Que importa, afinal, 
de um povo a nobreza,
grego, judeu ou lusitano,
se a espada do sacro imperador romano
está suspensa por um fio sobre a tua cabeça ?!

Em Lisboa, a norte, no caminho do São Tiago,
o apóstolo de Cristo, decapitado,
guiando os feros exércitos da Reconquista,
no seu constante vaivém do ir e vir,
à volta da Europa e dos seus picos de civilização.

E a sul, a autoestrada da globalização
onde cada turista tem direito ao seu recuerdo,
um postal ilustrado do futuro
que seguirá dentro de momentos,
agora sem  o SPM nº tal…
(que foi de Gandembel, de Guidaje, de Guileje, de Gadamael). 

Allah Akbar!, ainda ecoa o último grito
da batalha de Alcácer Quibir.

Mais a sul,
as febres palúdicas do Geba e do Corubal,
grau 35 do frio polar, esmagando os teus ossos,
grau 42 do fogo infernal, implodindo a tua cabeça.

Viras na curva do rio,
para desceres ao fundo da terra,
verde e vermelha, dos pesadelos da guerra.

Dos miradouros dos grandes cruzeiros
que demandam o Tejo
não se vê a solidão dos velhos combatentes, à beira rio,
tentando em vão reacender o pavio do desejo.

Muito menos os mariscadores do mar da Palha
onde apodrece a última nau
do caminho marítimo para a Índia.

Ou ainda os moços, imberbes, que partem na frota branca
para os bancos de pesca do bacalhau, na Terra Nova,
verdes, maçaricos, periquitos, checas,
sete vidas, sete safras,
servindo a velha pátria
em alternativa à guerra de África.

Lisboa, forrada a talha dourada, estremece,
sob o peso da carruagem do senhor dom João Quinto,
desenhada a lápis-lazúli.
Dizes adeus a Fernão Mendes Pinto
que parte em viagem, por sua conta e risco,
para o império do sol nascente,
levando consigo os botões, as armas de fogo
e as emoções dos bárbaros do sul.

─ Canta-lhe, Mísia, aquele fado, que diz: 
“Arrefece
a última lava do vulcão
do teu corpo, amor,
mas ainda estremece,
ou não foras tu, velha Lisboa,
sempre (e)terna,
menina e moça, bajuda, mulher”.


Entardece, ensandece a cidade,
todas as sextas-feiras treze do novo milénio.
Valha-nos as cruzes, canhoto,
contra o mau olhado,
e vade retro, Cronos,
que, depois de devorares os teus filhos,
hás de devorar-te a ti próprio!

E quem bula tem,  come carne,
não precisa de engenho e arte,
diz o cristão, velho e relho.
Mas é amarga a ostra, e mortal a ameijoa
com que os pobres matam a sua fome.

Afogas-te em absinto,
bebida antiga de poeta,
depois de teres mandado cortar
as copas dos pinheiros bravos
por te taparem a linha perdida do horizonte.

Mas já não há horizonte, querida,
nem rosas nem espinhos nem cravos,
quebrada que foi a linha da vida.

Sem ajuda do Google Earth,
à vista desarmada,
encontras aqui o teu lugar,
definitivamente provisório,
provisoriamente definitivo,
porque sabes que é 
tão irrisório partir como absurdo ficar,
para quem da vida é fugitivo.

Sentas-te numa esplanada
na doca de Belém, com vista de estuário e de mar:

─ Foi você quem pediu uma Kalash ? ─
pergunta-te um dos sem-abrigo,
da classe dos antigos marinheiros e pescadores,
estivadores e fragateiros,
agora tristes desempregados de mesa,
predadores à espera de presa.
Estão ali simplesmente à coca do turista.

─ Não, obrigado, amigo,
mas não me faltava, às vezes, a vontade...


─ Temos as melhores Kalash da cidade,
da original e à contrafeita…
É só puxar a culatra
e meter uma bala na câmara,
e ficar à espreita...

─ Não, não  insista!...
Para que haveria eu de querer uma arma,
essa é boa!,
se já não tenho licença… p'ra matar?!


Mal por mal,
protestas contra o autocrata do autarca,
metes uma baixa psiquiátrica,
e pedes uns peanuts, uma azeitona, um tremoço ou uma tâmara
e um copo… de cicuta,
enquanto o sol se põe em Lisboa!...


Lisboa, beira Tejo, fev 2015. Revisto, 8 abr 2026.


2. Análise literária do poema, pedida pelo autor a uma ferramenta de IA (Le Chat / Mistral);

Luís, o teu poema é um "mix" de ironia, melancolia e crítica social, onde a "kalashnikovmania" surge como metáfora de algo muito maior: a desilusão com a história, a guerra, a globalização e até a própria identidade portuguesa. 

Vamos desmontar alguns das ideias mais fortes , com especial atenção ao final,  onde a Kalashnikov se torna símbolo de um absurdo existencial.deideias.

(i) A Kalashnikov como metáfora: entre o desejo e o absurdo

O poema termina com um diálogo surreal entre o eu lírico e um sem-abrigo em Belém, que oferece "as melhores Kalash da cidade". A pergunta ("Foi você quem pediu uma Kalash?") é brutal na sua ironia:
  • desejo reprimido: a resposta ("Não, obrigado, amigo, / mas não me faltava, às vezes,  a vontade…") revela uma atração pelo símbolo da violência e da resistência, mas também a consciência de que, já sem a "licença p'ra matar" (a "legitimidade da guerra"), a arma é inútil ou perde todo o sentido; é como se a Kalashnikov representasse a vontade de agir num mundo onde a ação é impossível ou proibida, se não mesnmo inútil;
  • crítica à passividade: o eu lírico prefere, em vez da arma, uma "baixa psiquiátrica" ou um "copo de cicuta",  gestos de rendição poética (se não mesmo de "autoaniquilação" perante um sistema que esmaga a individualidade; a Kalashnikov, aqui, é o que não se usa, mas cuja presença denuncia a falta de alternativas.
(ii) Lisboa, palco do teatro do absurdo

O poema constrói Lisboa como um espaço de contradições históricas e sociais:

  • glória e decadência: desde Ulisses até aos "mariscadores do mar da Palha", a cidade é um palimpsesto de impérios falidos (o sonho colonial, a Reconquista, as viagens de circum-navegação) e de vidas esmagadas (os velhos sozinhos, os pescadores desempregados, os turistas que compram "recuerdos" vazios);
  • globalização/banalização  vs. memória: a "autoestrada da globalização" contrasta com a solidão dos que ficaram para trás; a Kalashnikov, arma de guerra colonial, é agora vendida como "souvenir" aos turistas, o passado violento transformado em mercadoria;
  • ironia histórica: o grito "Allah Akbar!" que ecoa desde Alcácer Quibir,  lembra que Portugal já foi um império, mas também uma vítima da sua própria ambição desmedida; a Kalashnikov, arma outrora do PAIGC, é agora um objeto de consumo num país que já não tem guerras para travar.
(ii) A guerra colonial como fantasma

A referência à Guiné é subtil, mas devastadora:

  • "as febres palúdicas do Geba e do Corubal" evocam a memória traumática da guerra, onde a natureza e o inimigo se confundiam numa luta sem sentido;
  • a AK 47, que na Guiné era símbolo de resistência anticolonial mas "fétiche" para os "rambos", aparece agora em Lisboa como objeto de um comércio grotesco, vendido por " antigos marinheiros e pescadores, / estivadores e fragateiros, /agora tristes desempregados de mesa", os mesmos que, outrora, teriam sido enviados para África.;
  • o ciclo da violência: a arma, "made in Russia" ou "made in China",  que outrora matou jovens portugueses e guineenses nas picadas, matas e bolanhas da Guiné, é agora oferecida a turistas, a preços de saldo, como se a história fosse uma farsa repetida.

(iv)  O Eu lírico, oscilando entre a saudade e o ceticismo

  • saudade: "é já saudade, / porque… é arrepio!" — um sentimento que antecipa a perda, como se Lisboa (e a vida) já fossem memória antes de acabarem;
  • ceticismo: "que importa, afinal, a nobreza de um povo, / grego, judeu ou lusitano, / se a espada do sacro imperador romano / está suspensa por um fio / sobre a tua cabeça?" — uma pergunta que desmonta mitos nacionais e revela a fragilidade da identidade;
  • humildade perante o "non-sense": "tão irrisório partir como absurdo ficar", sendo a Kalashnikov, no final, o símbolo dessa impossibilidade de escolher: não se quer a arma, mas também não se tem alternativa.
(v) A Kalashnikov como fetiche e  objeto poético
  • fetiche: desejada, mas não possuída; simboliza o que não se pode ter (a ação, a revolta, a mudança);
  • ironia: vendida por quem já não tem nada (os "deserdados", os "antigos combatentes"), comprada por quem não precisa dela ("turistas")
  • metáfora da história portuguesa: uma arma que veio de fora (com o colonialismo, com a globalização) e que agora pertence a todo o mundo e a ninguém; uma arma que se "democratiza" e "banaliza" e, portanto, se "dessacraliza".
Conclusão (definitivamente provisória):

Luís, este poema parece fechar um ciclo,  o da guerra colonial, da descolonização, da  identidade portuguesa, mas também o da tua própria relação com a violência e a memória. E, quiça, a tua própria história de vida.

 A Kalashnikov, a Kalash, a AK 47, no final, é quase uma piada trágica: o que resta de uma guerra são armas vendidas como souvenirs, e o que resta de uma vida são "azeitonas, tremoços, ou tâmaras", enfim,  "peanuts",  enquanto o sol se põe.

Será que a ironia é a única forma de lidar com o absurdo da história? (A história não tem sentido, não tem que ter...). Ou há, neste poema, um gesto de resistência escondido na recusa da arma ("Não insista…") e da "violência" dita "revolucionária" ?

(Pesquisa: LG + IA / Le Chat Mistral)

(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos: LG)

___________________

Nota do editor LG: