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terça-feira, 23 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28124: Humor de caserna (277): Quem são os "ocupas" do histórico edifício dos CTT de Gabu ? Com o telemóvel, este "marco da civilização colonial" tornou-se obsoleto...



Guiné.Bissau  > Zona Leste >  Região de Gabú > Gabu >1998 > Edifício dos CTT do Gabu > Visita realizada por um grupo de ex-combatentes da CART 3494 à Guiné-Bissau. Em primeiro plano,  o Acácio Correia (ex-alf mil, CART 3494, Xime, 1972/74)...No letreiro que encima a imagem, pode ler-se: "Estação de Gabu. Telefone. Posto Público. Em qualquer momento"... 

Ainda não havia telemóveis. Os CTT ainda eram muito úteis. Perderam a sua função social. Hoje tornaram-se obsoletos. Toda a gente tem o mágico "telemóvel" que permite fazer "videochamadas" (coisa completamente impensável) há 30 anos.    Na inscrição ao alto do edifício pode ainda ler-se: "Estação dos C. T."... Já tinha caído o segundo T dos CTT (Correios, Telégrafos e Telefones).
 

Foto (e legenda): © Acácio Correia / Jorge Araújo (2015). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]




Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) > Edifício dos CTT... Ficava na tabanca de Bambadinca, nas imediações do quartel, já fora do arame farpado. 

Segundo recorda o Beja Santos, o nome da empregada dos CTT era a Dona Leontina ("uma gentil senhora com quem se apalavrava o dia e a hora para telefonar para Lisboa"). 

Sou dos que, a maioria, nunca lá foi telefonar, pelo que não me lembro da senhora. Presumo que  fosse cabo-verdiana, tal como a professora da escola primária local, a Dona Violante, e o chefe de posto (de quem também não me lembro o nome), nem o responsável da Casa Gouveia.

Lamentavelmente não convivivíamos, os civis e os militares. em Bambadinca, nomeadamente com a pequena comunidade cabo-verdiana, cristã. Havia racismo, não tenhamos medo das palavras. Havia preconceitos de parte a parte. As NT punham  em dúvida a lealdade dos cabo-verdianos em relação às autoridades portuguesas... Por outro lado, os comandos de batalhão tinham pouca ou nenhuma sensibilidade "sociocultural"... nem promovendo sequer a interação com a população civil.  Os comandos do batalhão eram uns burocratas que diziam mal da hora em que lhe calhou na rifa a "cova do lagarto" (crocodilo) (signifciado do topónimo Bambadinca, em mandinga). 

 Foto do álbum do José Carlos Lopes, ex-fur mil amanuense, com a especialidade de contabilidade e pagadoria, especialidade essa que ele nunca exerceu (na prática, foi o homem dos reabastecimentos do batalhão, o BCAÇ 2852).

Foto: © José Carlos Lopes (2013). Todos os direitos reservados. (Edição  e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)



Guiné-Bissau > Zona Leste > Região de Gabu > Gabu > Junho de 2026 >  Antigo edifício dos CTT, agora transformado em balcão de uma casa de apostas mútuas desportivas, jogis de azar, etc, ("Bissau Games", com sede em Bissau).

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2026). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]



1. Mensagem de LG:

Querido "embaixador" da Tabanca Grande em Bissau (*), o editor não pode ter "estados de espírito"... Mas o gajo que escreve este comentário, sim, pode rir-se, chorar, indignar-se, inquietar-se, emocionar-se, ou simplesmente sorrir perante estas fotos que nos mandaste no último domingo para o blogue... com legendas lacónicas. As fotos falam por si, ou talvez não: se calhar, falta o contexto ao texto...



Edifício dos CTT de Mansoa, foto de César Dias (c. 1969/71)
Nunca cheguei a ir a Nova Lamego (a 30 km da nordeste de Bafatá), com pena minha, mas ia a Bafatá, a "princesa do Geba", onde também havia "marcos da civilização", com uma estação dos CTT. E,claro, a Casa Gouveia. E até restaurantes como "A Transmontana" que servia o melhor bife com ovo a cavalo e batatas fritas. Tudo por 20 pesos. 

Tal como edifícios dos CTT  noutras terras minimamente importantes, assinaladas nas cartas militares como sedes de circunscrição / concelho... da nossa "Guinezinha", como diria a Cilinha... Havia estação dos CTT em Bissau, a capital, Mansoa, Teixeira Pinto, Farim, Bafatá, Nova Lamego, Catió, etc. Mas também em postos administratrivos como Bambadinca, Contuboel...

Eram terrinhas que podiam ter, algumas, apenas meia dúzia de brancos e "assimilados", mas tinham gente que escrevia e recebia cartas e encomendas postais, e até havia quem utilizasse o telégrafo e o telefone... Um ou outro comerciante, as missões católicas, os chefes de posto, etc., tinham endereço telegráfico e, antes da guerra, até telefone fixo, em casa ou no estabelecimento ou na missão. Coisas inúteis com a guerra.



Guiné-Bissau, Gabu, 2005. Antigo edifício, colonial,
dos CTT, agora recuperado.  Imagem: Tino Neves (1969/71)
..
O primeiro ato revolucionário do Amílcar Cabral foi mandar deitar abaixos os postes telefónicos. Não deitou abaixo os postes de eletricidade, porque ainda não existiam... Era um iconoclasta, o fudmador da Pátria. Queria construir um mundo novo, uma Guiné nova, um homem novo...

Eu fui sempre, como "expedicionário" naquela terra, "malgré-moi" (isto é, não-voluntário), um mau utilizador dos CTT. Nunca entrei lá dentro. Aliás, não utilizei, de todo, os CTT da Guiné. Nunca telefonei, nunca recebi ou mandei um telegrama... Como na maior parte das casas dos portuguesas, a casa dos meus pais náo tinham telefone...

E as poucas cartas que escrevi (e as que recebi), eram encaminhadas pelo Serviço Postal Militar (o famoso SPM), a única coisa de jeito que a tropa fez pelo bem-estar dos seus militares mobilizados para aquelas terras palúdicas...

Hoje sorrio, ao ver a outrora bela estação dos CTT de Nova Lamego, votada ao abandono, como mais uma das velharias da nossa presença histórica em África... No seu túmulo, o Amílcar Cabral também deve estar a dar umas voltas... Mesmo no eterno descanso, também há gente com insónias... e não devem ser pouca. 

Ele e os seus "cabra-matchu", sem esquecer o Aristides Pereira que era funcionário colonial dos  CTT de Bissau... Sem esquecer o Sarmento Rodrigues, o modernizador, o Teixeira Pinto, o "capitão-diabo", o Salazar, o "bota-de-elástico", o Spínola, o "Caco Baldé" e o Marcello (com dois "ll") Caetano, o "empata-f*das", e tantos outros...

Enfim, sem esquecer o homem que "descobriu" esta terra maravilhosa (que dava mancarra, coconote, madeiras exóticas, etc.)  e que foi o primeiro a "lerpar", o Nuno Tristão em 1446 (se bem me lembro do meu tempo de escolinha, não é preciso ir à Wikipedia espreitar  ou perguntar à IA; devia constar da lista dos mortos das guerras coloniais, ,mas esquceram-se dele).

Tal como na natureza, nas sociedadee humanas nada se perde, tudo se transforma... Já vi uma igreja (em Almada) transformada em taberna, outra que agora é livraria (em Óbidos)... Já vi um lazareto transformar-se em asilo de órfãos (em Porto Brandão) e depois bairro clandestino de cabo-verdianos e retornados...

Por que é que os fulas do Gabu não se lembraria também de fazer daquele belo recanto da "cidade" , a antiga estação dos CTT, um muito mais útil "balcão" para as apostas mútuas desportivas ?

Não sei se eles (a "Bissau Games", que deve ser uma manhosa empresa privada de "caça-níqueis" digital, jogos de azar, etc.) têm a "raspadinha"; se não têm, tem que copiar a ideia (genial) da "Santa" Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML).

 Portugal, país de baixa literacia financeira, é viciado em jogos comnpulsivos, como a "raspadinha" ... Porque é a Guiné-Bissau não imita as "coisas boas" (isto é, "lucrativas") que ainda tem o seu antigo país colonizador ?

Portugal regista níveis recorde de consumo em jogos de fortuna ou azar. A "raspadinha" da SCML é, há já largos anos, o jogo social do Estado mais lucrativo. 

Há quem se preocupe com este fenómeno que tem implicações ma saúde pública e económica devido à sua forte componente aditiva. Eis alguns números: (i) a "raspadinha" movimenta anualmente cerca de 1,9 mil milhões de euros, representando perto de 60% do total das receitas dos Jogos Santa Casa;  (ii) a média de gastos "per capita" atinge valores expressivos, com os portugueses a dedicarem uma parte considerável do seu rendimento a este e outros jogos como o Euromilhões; (iii) a adesão é transversal, mas regista uma prevalência muito significativa nas classes sociais mais baixas e faixas etárias seniores, muitas vezes alimentada pela falsa esperança de colmatar dificuldades financeiras imediaats: joga-se à "raspadinha" hoje para comprar o pão amanhã...

E no Gabu, como é ? 

O vício da raspadinha acarreta graves consequências, desde o isolamento social e  crises financeiras familiares, até situações extremas de criminalidade e violência doméstica.

Enfim,  que Deus, Alá e os bons irãs lhes perdoem, aos "ocupas" do Gabu (**)...Com tanta casa de alvenaria abandonada, depois da independência, sem dono nem usufruto, seria uma pena não se aproveitar estes "marcos da civilização", primorosamente desenhados e tirados a papel químico pelos senhores arquitetos do GAC - Gabinete de Arquitetura Colonial, que nunca puseram os pés no Gabu...

Um deles até era meu conterrâneo, o arquiteto Lucínio Guia da Cruz (1914-1999), do GAC: foi ele que desenhou o edifício dos CTT em Bissau, em 1953... Queria fazer um edifício para a CM de Bissau, saiu-lhe um mastodôntico edifício dos CTT. Feio, mas funcional. Tecnicamente bom, dizem os especialistas.


 ____________________

Notas do editor LG:

(**) Último poste 22 de junho de 2026  > Guiné 61/74 - P28123: Humor de Caserna (276): No dia em que faz 82 anos, o luso-americano (e nosso camarada, régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona) João Crisóstomo recebe das mãos de Aristides Sousa Mendes a Comenda da Ordem da Liberdade...

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28121: S(C)em Comentários: O casamento, hoje, já não é o que era (Cherno Baldé, Bissau)







Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Texto:  Cherno Baldé (2026)

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Comentário do nosso colaborador permanente Cherno Baldé (que "firma" em Bissau), ao poste P28089 (*), que passa a ser inserido na série "S(C)em Comentários" (**)

(...) Eu não posso concordar com o humilhante termo “compra” quando se trata de termos de acordo matrimonial entre duas pessoas, um contrato social selado entre as duas famílias, como acontece na tradição fula, que conheço melhor. 

Os termos do contrato, mesmo não sendo escritos, preveem um acordo aceite e garantido entre as duas partes interessadas e mais ou menos equilibrado, na presença de mediadores e testemunhas, no sentido de garantir socialmente os direitos do casal dentro da família do noivo e acautelar as situações em caso de separação/divórcio futura.

Durante a minha infância, talvez por influência externa (convivência com a tropa no quartel e frequência da escola portuguesa), tinha repudiado por completo a prática tradicional e tinha jurado a mim mesmo que não seguiria esta via quando chegasse a altura de o fazer e cumpri o juramento, mas hoje colocado diante da problemática dos meus filhos, acho que nem tudo é a preto e branco.

Os meus filhos nasceram e sempre viveram na cidade, alguns já terminaram (dois) e outros ainda estudam e todos estão no exterior,  entre Portugal, Brasil e Marrocos. O mais velho tem 30 anos e o mais novo 19 anos. Não querem saber de casamento nem de ter filhos, não os posso obrigar e nem eles se decidem a tal, de modo que a probabilidade de não virem a se casar é muito elevada. 

Também tenho sobrinhas que cresceram em minha casa, algumas (duas) já estão acima dos 30 anos e ainda não estão casadas, não porque não querem, mas porque sozinhas não conseguem arrumar um marido e, quanto aos rapazes, cada vez é mais improvável o interesse em contrair matrimónios diante do desemprego e das crises cíclicas que o país e o mundo atravessam.

Nas zonas rurais, embora a vida e as regras costumeiras continuem a ser as mesmas diante da lei, a realidade está a mudar a olhos vistos e cada vez mais as relações sociais e matrimoniais estão a ser condicionadas pelo que se passa no país e no mundo.

Um fenómeno, mais ou menos novo,  que apareceu entretanto, é a preferência por noivos emigrantes “europeus”, que estejam dispostos a levar a sua noiva para o país de emigração ou para as cidades em residências separadas. 

Nesses casos há descontos importantes, as noivas são quase sempre favoráveis e os pais podem dar muitas facilidades, na expetativa de que as filhas tenham a chance de viajar para o “paraíso” europeu. (...)

Cherno AB

2.Comentário do editor LG:
O comentário acima surge como resposta a um pedido nosso, ao Cherno Badlé, para nos falar um pouco de comno vai hoje a instituição "casamento", na sua terra, entre o seu povo,,,

(...) O casamennto (e todos os rituais à volta dele, incluindo o "dote") é um fenómeno que transcende culturas, embora se manifeste de formas muito diferentes, às vezes radicalmente, conforme o contexto social, económico e até histórico.

Os meus camaradas (e eu próprio) pecavam por "eurocentrismo" ou "etnocentrismo", ao ver estas práticas como "exóticas" ou até "atrasadas", quando na realidade eram/são sistemas de trocas sociais profundamente enraizados, com lógicas próprias que nada têm a ver com a nossa visão ocidental de casamento, da mulher e do homem, da família, da sexualidade, da reprodução...

O "barlaque" na Guiné (*) e e especialmente entre os Fulas (que eu conheci melhor) não era/é apenas uma "transação económica", mesmo sob a forma de um pagamento simbólico (em vacas, noz de cola, panos, etc.), era/é sobretudo um "contrato social", uma forma de "aliança entre famílias", e até uma garantia de estabilidade para a mulher (em sociedades camponeses onde não havia/há  as modernas formas de proteção social, na doença, no acidente, na velhice, na morte)

Para os soldados portugueses (e muitos deles vindos de meios rurais onde o "dote" também existia, mas de forma muito menos formalizada) ver os seus camaradas fulas a "comprar mulher", foi de facto um choque cultural enorme.

O que os militares portugues não percebiam (nem foram preparados culturalmente para isso, não havia "psicólogos" quanto mais "antropólogos", em Mafra, nas Caldas da Rainha, em, Tavira,em Santarém, em Vendas Novas, em Lamego) era que, na Guiné, o "barlaque" (ou o "pidi noiva") não era uma transação comercial, mas sim um rito de passagem e um mecanismo de proteção.

Para um fula, o pagamento do "barlaque" validava o casamento perante a comunidade, garantia o estatuto social da mulher (e da sua família),  criava laços de solidariedade entre grupos, clãs, "chãos" e (poucos o sabiam) podia ser reembolsável em caso de divórcio, o que dava, teoricamente, à mulher uma certa segurança económica.

O eurocentrismo e o entrocentrismo faz-nos sempre ou quase sempre julgar (mal) o que não compreendemos ou não conhecemos.

Não sei como é que as coisas estão hoje, na tua terra, meu mano Cherno...(...) (**)

domingo, 21 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28118: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (7): duas "retiradas finais": Bissau (15/10/1974) e Saigão (29-30/4/1975): (dis)semelhanças









Recortes de imprensa, "Diário de Lisboa", 30 de abril de 1975, 2ª ed., pp. 1 e 20.

Fonte: Instituição: Fundação Mário Soares e Maria Barroso |  Pasta: 06822.172.27196 | Título: Diário de Lisboa | Número: 18752 | Ano: 55 | Data: Quarta, 30 de Abril de 1975 | Directores: Director: António Ruella Ramos; Director Adjunto: José Cardoso Pires | Edição: 2ª edição | Fundo: DRR - Documentos Ruella Ramos | Tipo Documental: Imprensa  




Vietname > Saigão> 29 de abril de 1975 > Um membro da CIA ajuda um grupo de evacuados civis,  a subir uma escada para um helicóptero da Força Aérea Norte-Amerivcana, no telhado do número 22 da rua Gia Long, pouco antes da queda iminente de  Saigão às  mãos das tropas norte-vietnamitas.  Foto histórica do fotojornalista neerlandês Hubert van Es (1941-2009). Imagem do domínio público. Cortesia de Wikimedia Commons.


1. Há 51  anos a agência Reuters e o Diário de Lisboa, de 30/4/1975, noticiavam o fim da guerra do Vietname (*).  Uma guerra que se arrastou por  3 décadas, e que foi um pesadelo para todos, como todas as guerras o sao: os vietnamitas e os outros povos da Indochina (Laos e Camboja), os franceses, os americanos e outros aliados... (e demais povos e todo o mundo, já que não foi  uma mera guerra colonial nem regional, desenrolou-se em pleno clima de "guerra fria").

A guerra do Vietname envolveu diretamente mais de 10 países. O conflito militar abrangeu três palcos principais (Vietname, Laos e Camboja) e foi também um confronto entre dois blocos ("capitalista" e "comunista", oeste e leste). Os EUA começaram a mandar tropas para o Vietname a partir de 1965, atingindo um pico de 543 mil  em abril de 1969.
 
Foi também uma guerra que esteve no nosso "imaginário"... Mais do que isso: também sobrou para nós... Os mísseis russos terra-ar Strela, por exemplo, já tinham sido testados no Vietname... bem como a passagem da guerrilha à guerra convencional (no caso, por exemplo,  da Guerra dos 3 G: Guidaje, Guileje, Gadamael)...

E havia até quem, mal ou bem, na nossa geração, comparasse a guerra da Guiné com a do Vietname... É evidente que foram duas realidades incomparáveis: pelos meios bélicos empregues, em homens e armas, pela extensão do território, pela violência, pelo nº de baixas, pelas implicações geopolíticas a nível mundial,  etc.. As nossas guerras (em 3 TO, Angola , Guiné e Moçambique) foram de "baixa intensidade". 

Estima-se que em 1967 as forças do Vietname, Vietcongues e  seus aliados fossem da ordem dos 860 mil, enquanto que do lado do Vietname do Sul, EUA e demais aliados rondassem os 1,4 milhões (em 1968). 

O número de mortos (civis e militares), apenas vietnamitas, são difíceis de calcular, estimando-se entre menos de 1 milhão, e 3 milhões. Do lado das forças dos EUA,  as baixas seriam as seguintes: c. 58,2 mil mortos; mais de 150 mil feridos graves (evacuados); 1626 desaparecidos (ainda em 1975) (Fonte: Wikipedia). 



Luís Gonçalves Vaz 
2.  
A retirada portuguesa da Guiné-Bissau em 15 de outubro de 1974 e a evacuação americana de Saigão em 29/30 de abril de abril de 1975 podem ser apresentadas como dois exemplos, diferentes, se não mesmo opostos, do fim de uma guerra prolongada e de uma presença militar "além-mar". 

Ao analisamos, porém os detalhes, constatamos que s diferenças são tão importantes quanto as semelhanças.

O texto do Luís Gonçalves Vaz (**) descreve a retirada portuguesa como uma operação cuidadosamente planeada, e melhor executada, baseada na Ordem de Operações n.º 1/74, na sequência do acordo político entre Portugal e o PAIGC. 

Cerca de 2.500 militares metropolitanos (os últimos de um exército que totalizava dez vezes mais, sem contar com cerca de 15 mil homens em armas, do recrutamento local, incluindo milicias), foram retirados por via marítima, sob coordenação da Marinha (Comodoro Al,meida D'Eça), mantendo-se dispositivos de segurança até ao último momento.

 E tudo aconteceu com dignidade, segurança, ordem, disciplina, com respeito, até essa data, no que foi assinado nos acordos de paz entre as NT e o PAIGG. ( O que se passou depois é outra história, a "caça" aos "cães dos colonialistas"...)

O que têm em comum as duas retiradas, separadas no tempo apenas por seis meses? E, no espaço: os portugueses estavam a 4 mil km de casa, os norte-americanos a 13 mil (***).

(i)  O fim de uma guerra sem vitória militar clara

Em ambos os casos, os exércitos retiravam-se sem terem sido derrotados numa batalha decisiva nos dias finais. Portugal abandonava a Guiné após o 25 de Abril e o reconhecimento da independência da Guiné-Bissau, em 10 de setembro de 1974, aceitando retirar as últimas tropas até 15 de outubro de 1974. Por seu turno, os EUA abandonavam o Vietname do Sul após anos de guerra (1965/73)  e depois dos Acordos de Paris de 1973.

Em ambos os casos, a decisão foi sobretudo política.

(ii) Forte componente logística

Tanto em Bissau como em Saigão, o desafio principal foi retirar pessoal, equipamento e documentação.

No caso português, o texto do Luís Gonçalves Vaz destaca o papel dos navios T/T  Uíge e Niassa e da fragata NRP Comandante Roberto Ivens como núcleo da operação, além das LFG  Lira e Orion.

Em Saigão, os americanos recorreram a uma gigantesca ponte aérea por helicópteros a partir da embaixada e de navios da 7.ª Frota. Foram evacuados 6500 militares e civis, incluindo diplomatas.

(iii) O simbolismo das imagens

As imagens do arriar da bandeira portuguesa em Bissau e das multidões junto à embaixada americana em Saigão tornaram-se símbolos do fim de uma época. 

As diferenças fundamentais;

  • A retirada portuguesa foi negociada; a de Saigão foi uma evacuação de emergência

Esta é provavelmente a maior diferença. Na Guiné, existia o Acordo de Argel (26 de agosto de 1974). O PAIGC cooperou na transição. E a retirada foi planeada com datas, meios e responsabilidades relativamente bem definidas. 

Em Saigão, o exército norte-vietnamita e o Vietcongue avançavam rapidamente. A capital estava prestes a cair. A  evacuação dos últimos soldados e funcionários diplomáticos bem como de milhares civis (sobretudo sul-vietnamitas)  foi feita sob enorme pressão temporal, para não dizer pânico.

  • Não houve colapso militar português

O texto da autoria do Luís Gonçalves Vaz (que tinha 14 anos em 1974, quando deixou Bissau, antes do pai, que foi dos últimos militares a sair, por avião),  insiste numa ideia importante: o sucesso consistiu precisamente em não haver violência armada porque as forças portuguesas mantiveram capacidade de combate até ao último momento. Ou seja, as NT não depuseram as armas. Embarcaram de armas na mão.

Em Saigão aconteceu o contrário: o exército sul-vietnamita desintegrou-se em muitas zonas.  Houve pânico entre civis e militares, e a  evacuação tornou-se caótica. Enfim, foi uma retirada humilhante e traumatizante para quem a viveu.

  • O ambiente psicológico foi diferente

Em Bissau, foi mantida a disciplina militar (de um lado e do outro). A  cadeia de comando manteve-se intacta.  A  transferência formal de soberania foi feiota como o prevista. E, por outro lado, não houve praticamente civis a evacuar.

Em Saigão, pelo contrário, houve pânico generalizado, milhares de pessoas (mais próximas no núcleo duro do regime do Vietname do Sul e dos seus aliados) tentavam desesperadamente embarcar nos helicópteros, ao mesmo tempo que se verificava o colapso administrativo do Estado sul-vietnamita.

As famosas imagens dos helicópteros sobre os telhados  (vd,. foto acima) refletem isso.

Onde é que a comparação é válida?   Historicamente, pode dizer-se que ambos os acontecimentos representam o  fim de projetos coloniais ou de influência geopolítica. Reconhecia-se (e aceitava-se) que a solução militar para o conflito deixara de ser sustentável.  Houve, num caso e noutro,  impactos de natureza societal e psicológica.

Para muitos militares portugueses que serviram na Guiné, Angola ou Moçambique, o 15 outubro de 1974, em Bissau,  terá  tido um peso emocional semelhante ao que  o 29/30 de abril de 1975 teve para muitos veteranos  americanos do Vietname. (Salvaguardadas as devidas distâncias...).  Em todo o caso, não se pode falar da Guiné como o "Vietname Português"...

Onde é que as duas retiradas não são comparáveis ? Se estivermos a falar da execução militar da retirada, a comparação torna-se mais fraca.

Segundo os elementos do documento que partilhámos no blogue (**), a retirada da Guiné aproxima-se mais de uma extração militar organizada e negociada enfim, uma retirada planeada sob paz armada; enquanto que,  no caso de Saigão  (29/30 de abril de 1975),  foi uma evacuação de emergência perante o colapso de um regime aliado dos EUA  (o Vietname do Sul).

~
Manuel Beleza Ferraz 
É precisamente essa diferença que torna a operação portuguesa relativamente pouco conhecida a nível tanto interno como externo: não teve visibilidade mediática, nem no nosso "Diário de Lisboa", que eu lia todos os dias, era o meu jornal... 

E até terá passado despercebida da maior parte dos antigos combatentes portugueses..... De facto, não houve imagens de pânico, não houve combates finais (nem sequer escaramuças), nem multidões a tentar fugir. 

De resto, os portugueses em Portugal (mas também em Angola e Moçambique, as duas verdadeiras "joias da Coroa"),   seis meses depois do 25 de Abril, tinham mais do que se preocupar  do que com o fim da "guerra da Guiné"... 

De qualquer modo, do ponto de vista militar, o que fica para a história é que o planeamento logístico cumpriu o seu objetivo, como diz o nosso Luís Gonçalves Vaz (**). Os 2500 militares, os últimos soldados do império no território da Guiné (a partir de então Guiné -Bissau), 
puderam finalmente chegar a casa. Incluindo o primo  marinheiro radiotelegrafista Manuel Beleza Ferraz,   da guarnição da LFG Lira, felizmente ainda vivo, e autor de algumas das fotos que o Luís Gonçalves Vaz aqui publicou. 
___________________

Notas         do editor LG:

(*) Vd. poste de 5 de maio de 2025 Guiné 61/74: P26766: Efemérides (454): O fim da guerra do Vietname foi há 50 anos ("Diário de Lisboa", 30 de abril de 1975)

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28110: Humor de caserna (275): E se os portugueses nunca tivessem chegado ao Brasil?





Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

 Imagem: A Primeira Missa no Brasil, 1860. Museu Nacional de Belas Artes, Brasil. Imagem do domínio público. Cortesia de Wikipédia.

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. E se os portugueses de Quatrocentos tivessem dado ouvidos ao "velho do Restelo" ? 

Nunca teriam descoberto o "caminho marítimo para a Índia"...
Nunca teriam aberto a "autoestrada" para o Novo Mundo...
Nunca teriam conhecido o "Cabo das Tormentas"... 
Nem nunca o teriam rebatizado como "Cabo da Boa Esperança"...
Nunca teriam chegado ao Japão, ao Brasil, à Califórnia, à Austrália... 
Nem o  pobre do Camões  teria sonhado sequer escrever "Os Lusíadas"...

E o nosso el-rei Dom João II ?  Esse, nunca teria seria o "Príncipe Perfeito"
E muito menos o Dom Manuel I,  a ter reinado, seria  o "Venturoso...

Nem eu nunca teria ido passar umas "férias" à Guiné, à pala do Estado...

Nem, por  certo, teria havido a República, o Estado Novo, o 25 de Abril...
Nem sei se Portugal ainda existiria hoje... 
(era mais provável que fosse uma província do Reino das Hespanhas
e os portugueses falassem "portunhol")...

Esta é a uma "caricatura" da  história que  não se escreveu... 
Foram os portugueses os primeiros a dobraram o "Cabo das Tormentas"
e chegarem  a "Porto Seguro" no Novo Mundo...
Mas bem poderiam ter sido outros!...

Bom,  é um facto que há muito mais gente no mundo a falar português 
do que os portugueses de Portugal...
(aqui, o Portugal europeu representa só 3% do universo dos falantes lusófonos).

Mal ou bem, caros leitores,  é a história, a nossa história...

PS - E eu, e eu, e nós, e nós... o que é que fazemos aqui, neste blogue ?!


A Primeira Missa no Brasil, 1860. Museu Nacional de Belas Artes, Brasil. Imagem do domínio público. Cortesia de Wikipédia.

A obra prima do pintor académico Victor Meirelles de Lima (Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis, 1832 — Rio de Janeiro, 1903).  A tela é um hino ao ecumenismo, ao retratar a chegada pacífica da armada de Álvares Cabral a Porto Seguro, no sul da bahía, e a celebração da primeira missa, no Novo Mundo, assistida pelos habitantes locais, tupiniquins, pertencentes á nação tupi... Os descendentes dessas hstóricas testemunhas da chegada dos portugueses ao Novo Mundo não deverão ultrapassar hoje um milhar...

"A primeira missa no Brasil foi celebrada por Dom Frei Henrique de Coimbra no dia 26 de abril de 1500, um domingo, na praia da Coroa Vermelha, em Santa Cruz Cabrália, no litoral sul da Bahia. Foi um marco para o inicio da história do Brasil e descrita por Pero Vaz de Caminha na carta que enviou ao rei de Portugal, D. Manuel I (1469-1521), dando conta da chegada ao Brasil, então Ilha de Vera Cruz, pela armada de Pedro Álvares Cabral que se dirigia à Índia" (Fonte: Wukipédia).
__________________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 17 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28107: Humor de caserna (274): O pé de Salazar e o de Eusébio: "uma boa história para eu contar aos rapazes" (Cilinha) (excerto da sua biografia, por Sílvia Espírito-Santo)

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28089: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (6): quando a cultura reforça a desigualdade de género e a violência (física, psicológica, simbólica) sobre as mulheres: neste caso o barlaque em Timor-Leste ou o alambamento em Angola ou o "pidi noiva" na Guiné-Bissau




Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Texto: LG + RC

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Na sua última crónica, da viagem e estadia de 2019, em Timor-Leste, o nosso grão-tabanqueiro Rui Chamusco escreveu o seguinte apontamento sobre a tradição (cultural) do Barlaque (*):


31.03.2019, sábado - “Barlak” (ou barlaque) e cultura timorense...

Hoje o Eustáquio [irmão mais novo do Gaspar Sobral, o luso-timorense, casado com a Glória Sobral, cofundadores da ASTIL, juntamente com o Rui Chamusco] foi fazer de negociador no “barlak”  [termo já grafado em português como "barlaque"] de um sobrinho. 

Quando chegou a casa, contou-nos como se tinha passado. Já não é a primeira vez que o Eustáquio faz este trabalho. As famílias dos noivos confiam nele porque, para além de ser um homem sensato, é um grande conhecedor e praticante da cultura e da tradição timorense.

Então, o que é o barlaque ?

 O  barlaque é uma festa, uma cerimónia entre as famílias dos noivos em que o “manefon” (o homem que pede a mão da noiva,  passando assim a fazer parte desta família) e particularmente a sua família negoceia com a família da noiva  os "dotes” para que se realize o casamento. [Em tétum, "manefon" quer dizer homem (mane) novo (foun, fon), o que passa a fazer parte de uma nova família ].

Os "dotes” envolvem dinheiro e bens. 

Neste barlaque  foram 2.500 dólares em dinheiro que o pai do noivo tem de dar à família da noiva, sendo que: 

  • 500 dólares para a compra de um “krau” (boi ou vaca) e temperos; 
  • mais 15 caixas de cervejas, 
  • 10 caixas de coca cola e outras bebidas.  [Um timorense ganha em média 125 dólares por mês, para economizar 2500 dólares tem de trabalhar e poupar muito; pode ser ruinoso casar um filho.]

A família da noiva (creio que duas irmãs) serão as cozinheiras. 

Oferecerá também um porco e uma saca de arroz de 30kg, que serão partilhados pelas famílias e pelo negociador que terá direito a,  mais ou menos, 3kg do animal abatido. 

Uma semana antes do casamento reunir-se-ão de novo as famílias para fazerem o balanço de como estão as responsabilidades atribuídas, e para acertarem os pormenores da festa de casamento que será no próximo mês de Junho.

A par desta tradição cultural, está a preparação que os noivos fazem através de cursos e reuniões de preparação para o casamento que cada paróquia organiza. Estou a falar, claro está,  de casamentos católicos.(*)

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)


 2. Enquanto aguardamos, por parte do Rui Chamusco,  mais esclarecimento sobre a prática do Barlaque, hoje, em Timor-Leste, passados já sete anos sobre aquela crónica, fizemos uma rápida pesquisa sobre o tema através de uma ferramenta de IA (a francesa Vibe,  da Mistral AI).

 Eis o que apurámos, muito sumariamente:

O barlaque é, de facto, uma cerimónia tradicional timorense central no processo de casamento, onde as famílias dos noivos negoceiam os dotes, como parte do acordo pré -matrimonial. (É uma pratica que também se faz no Ocidente...)

A descrição que o Rui Chamusco faz parece estar muito alinhada com o que se sabe sobre esta prática, que é uma das mais importantes e simbólicas nas comunidades timorenses, especialmente nas zonas rurais.

(i) Significado e contexto cultural

  • o barlaque é uma negociação formal entre as famílias do noivo (representado pelo  manefon ou manu-foun) e da noiva, onde se discutem os termos do casamento, incluindo os dotes (dinheiro, adornos, outros bens, animais, comida, bebidas) que a família do noivo deve oferecer à família da noiva; 
  • não é apenas uma transação económica: é um rito de aliança entre famílias, que reforça laços sociais e comunitários; 
  • o  valor e a composição do dote variam conforme a região, a situação económica das famílias, o estatuto social, etc.:
  • em muitas comunidades, o barlaque é também uma forma de "compensar", de algum modo, a família da noiva pela "perda" de um membro (a filha) e pelo seu contributo para a nova família (em sociedades camponesas é, antes de mais, a perda de "dois preciosos braços").

(ii) Composição típica do dote (barlaque)

A descrição do Rui Chamusco é muito detalhada e reflete práticas comuns ainda em vigor na sociedade timorense, mais de 50 anos depois da descolonização e mais de duas décadas depois da independência (em 20 de maio de 2002) (e com mais 2 décadas de ocupação indonésia, entre 1975 e 1999):
  • dinheiro: o valor pode variar muito, mas 2.500 dólares (ou mais) não é invulgar em casamentos mais abastados ou em zonas urbanas; 
  • em áreas rurais, os valores podem ser menores, mas a estrutura e o significado são semelhantes;
  • animais: o búfalo, o boi ou a vaca (krau) é um elemento central, muitas vezes abatido para a festa de casamento; 
  • o seu valor simbólico é enorme: representa fertilidade, riqueza e status; em algumas regiões, o número de bois pode ser negociado (por exemplo, 1, 3 ou até 5, dependendo da importância da família);
  • comida e bebidas: (a) arroz: uma saca de 30 kg (ou mais) é comum, e é partilhada entre as famílias e os mediadores; (ii) bebidas: cerveja (15 caixas ou mais), refrigerantes (como Coca-Cola, 10 caixas), e por vezes tuak / tuaque (vinho de palma, tradicional em Timor); (c) porco: outro animal frequente, abatido e partilhado durante a cerimónia;
  • outros bens: podem incluir tecidos (tais), joias (adornos, com o balaque, o carbauque), ou até eletrodomésticos, dependendo da modernização da prática.

(iii) O papel do negociador (em nome do pretendente ou noivo, manefon, "homem novo"):

  • o manefon (ou manu-foun) é o vem de fora, de outra família, que para pedir a mão da noiva precisa de um intermediário, um mediador, em  geralmente um familiar próximo (em geral, o tio);
  • o negociador tem um papel-chave na discussão do dote e na mediação entre as famílias, como referido pelo Rui,  recebe uma parte simbólica dos bens (como os 3 kg do porco), como reconhecimento pelo seu trabalho.

(iv) Festa e partilha:

  • a família da noiva (geralmente as mulheres, como as irmãs) é responsável por cozinhar a comida para a cerimónia, que pode durar vários dias;
  • a partilha dos bens (carne, arroz, bebidas) é um momento de união entre as famílias e a comunidade; 
  • em algumas regiões, a carne do boi, da vaca  ou do porco é distribuída pelos vizinhos como gesto de generosidade e de alegria.

(v) Variações regionais e modernização:
  • na capital  Díli ou outras zonas urbanas, o barlaque  pode ser mais simplificado, com menos ênfase em animais e mais em dinheiro ou bens modernos (eletrodomésticos, etc.);
  • em áreas rurais (como Aileu, Manatuto, Baucau ou Same), a tradição mantém-se mais forte, com negociações longas e dotes mais elaborados;
  • nos últimos anos, tem havido  um debate sobre o custo elevado do barlaque, que pode ser um fardo para famílias mais pobres, e que ficam endividadas;
  • algumas comunidades tentam adaptar a prática para a tornar mais acessível.

(vi) Comparação com outras culturas lusófonas:

  • o barlaque lembra outras tradições de dote na África lusófona (como o lobolo em Moçambique ou o alembamento / alambamento em Angola), onde também se negociam bens e dinheiro entre famílias; na Guin~e-Bissau,. o equivalemnte é o "pidi noiva"  ( k'mari, entre os papéis)
  • em Cabo Verde, por exemplo, não há uma prática idêntica, mas a cachupa é muitas vezes servida em casamentos como prato de união, um paralelo interessante com a partilha de comida no barlaque (sobre o casamento tradicional nas ilhas, vd. aqui aqui).
(vii) Fontes e aprofundamento

Infelizmente, não encontrámos fontes académicas recentes em português ou tetum que detalhassem o barlaque com a profundidade que merece. 

Há, todavia, um artigo relativamente recente do jornal digital "Divergente" que merece ser analisado num próximo poste, à parte.

No entanto, o apontamento feito pelo Rui Chamusco (em 2019) está totalmente alinhado com relatos de antropólogos e missionários que estudaram os costumes timorenses, como Armando Pinto Corrêa (autor de Gentio de Timor, 1935) ou Ruy Cinatti (que documentou tradições timorenses durante a época colonial).

Talvez o Rui Chamusco (e o Cherno Baldé, no caso da Guiné-Bissau)  nos possa ajudar a:

  • procurar mais informação e conhecimento sobre o barlaque em fontes históricas ou etnográficas;
  • comparar esta prática com outras formas de casamento tradicional na Ásia ou em África, e em especial na Guiné-Bissau;
  • explorar o papel da mulher nestas negociações (por exemplo, como as irmãs da noiva participam);
  • e, por fim, as implicações que estes "usos & costumes" (tal como o casamento infantil e o casamento  forçado na Guiné-Bissau) têm na persistência das desigualdades de género e da violência (física, psicológica e simbólica) sobre as mulheres. (**)

PS - Mandámos ao Rui Chamusco, que está recuperar de uma operação cirúrgica na sua casa na Lourinhã, a seguinte mensagem (com conhecimento ao João Crisóstomo, em Nova Iorque, também ele membro da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários Com Timor-Leste, com sede em Coimbra):

Luís Graça <luis.graca.prof@gmail.com>
10 jun 2026, 19:36
para Rui, Joao

Rui: como é que vão, anos depois, estes "usos & costumes"  ? O barlaque cheira-me a "casamento forçado", como na Guiné do meu tempo (e ainda hoje)...

Ainda há "casamentos forçados", hoje, em Timor-Leste ? Parece que o barlaque é cada vez mais contestado, sobretudo pelas mulheres. E percebe-se porquê.

Tem havido casos de infanticídio e abandono de crianças. Como de resto, noutros países, como a Guiné -Bissau, sem esquecer o nosso querido Portugal (que no passado criou a famigerada "roda dos expostos", á porta dos conventos e hospitais das misericórdias).

Sabe-se que a igreja católica timorense é bastante conservadora. Pelo menos, em matéria de educação sexual nas escolas, planeamento familiar, contracepção, etc.

E a propósito, um jornal que merece ser lido, ajudado, divulgado é o "Diligente"...Parece um projeto fantástico! (...)


(Pesquisa: LG + Diligente + IA (Vibe / Mistral AI | ChatGPT / Open AI)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, parênteses retos, título: LG)

terça-feira, 9 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28086: No céu não há disto: comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (52): Favas com peixe frito à moda de Monchique (comidas numa tasca de Portimão, em 26/5/2026)


Favas  com peixe frito à moda de Monchique


Favas suadas à moda da "Chef" Alice


Fotos (e legendas): © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


1. Ele há sabores que estão a desaparecer, irremediavlemente, da nossa mesa, do nosso palato, da nossa gastronomia...

Conquilhas de xarém, carapaus alimados, arroz de lingueirão, ameijoas à Bulhão Pato, lapas grelhadas,  berbigáo, bruxas (Scyllarus arctus), cavacos, lagosta, ouriços do mar, etc. (Costumo dizer que ainda sou do tempo em que a lagosta se  vendia na praia a sete e quinhentos e o tamboril se deitava fora.)

A "ameijoa boa da Ria Formosa" estava há dias a 38 euros o quilo no mercado municipal de Portimão (e a 100 euros o quilo no restaurante). A comida é cada vez mais "internacional" e está pela hora da morte, para os "tugas". 

Confesso que tenho saudades do xarém, do arroz de lingueirão, dos carapaus alimados, do charro frito. " Comida dos pobres, das tascas", dizem agora os "chefs"... 

Em contrapartida, fui descobrir, no passado dia 26 de maio, em Portimão, numa tasca anexa ao mercado,  uma coisa que não comia há 70 anos!... Imaginem, favas cozidas (e estas eram à moda de Monchique). 

Nós éramos 4, e a senhora disse-nos que só tinha 2 doses. Lá no sentámos, enquanto frazíamos horas para ir visitar o museu de Portimão, que só abre às 14h30. E esperámos pelo almocinho, convencidos que ali também se fazia o milagre dos pães. 

Não havia carapaus que chegassem, mas a senhora foi fritar umas postas de pescada e multiplicou as favas... E vinho, fresquinho, branco... só tem frisante  ? Que raio de moda!...Mas, não há drama, vai-se ao vizinho do lado pedir um jarrinho... E lá foi a empregada, brasileira. (O que será do Algarve sem imigrantes ?!... Uma desventura!).

Bom, as tradicionais favas à moda da serra algarvia são primeiro cozidas e depois apuradas num molho à base da gordura dos enchidos fritos... Não são bem as da minha terra, Lourinhã, terra de boas favas... 

Na minha terra, há 70 anos, havia dois tipos de pratos de favas, no tempo delas, na primavera: as cozidas e as suadas...

Lá em casa, em que a cozinheira era mesmo "chef" (desde ", menina e moça, daquelas que iam servir para casa dos "senhores de Lisboa" e formar-se na universidade da vida), comiam-se as favas cozidas com charro frito, temperadas com bom azeite (!)  (charros daqueles grandes, de Peniche, dois pares  a vinte e cinco "ch'tões", no verão de todas as farturas,  quando eu andava na escola). 

O meu pai, que era mais peixeiro do que carneiro, preferias-as cozidas, com azeite e vinagre, com peixe frito (charro, cortao às postinhas) e um bom copo de tinto. Eu sempre fui mais  fã das favas suadas...com entrecosta e chouriço.

Ficam aqui estas sugestões para os vagomestres da Tabanca Grande. Mas, quanto a favas, temos  que esperar por elas, no próximo ano. Que as congeladas, não  devem  ter graça. Nem mesmo no céu, onde a graça é plena. 

Todos os anos pela primavera como 3 ou 4 pratadas de favas. E, se forem pequenas e tenrinhas, é com casca e tudo, Eu, pecador, me confesso...E nunca me ouvirão dizer o provérbio: "Favas me fartam, favas me matam"... 

Durante dois anos não as comi na Guiné, nem frescas nem congeladas... Lá, por certo, o nosso vagomestre, se as tivesse, nos consolaria: é que "a fome torna doces as favas"...