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terça-feira, 3 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27790: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (2): Safety first? O "desastre" do Cheche na abordagem sociotécnica


Ilustração: Entropia.  Luís Graça (1999)

 

Guiné > Zona Leste > Região do Boé > Cheche > Rio Corunal > 6 de Fevereiro de 1969 > A jangada da tragédia na retirada de Madina do Boé. Foto de Paulo Raposo 

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


1. No nosso tempo de tropa, ensinaram-nos que "mais valia perder um minuto na vida do que a vida num minuto"...  Ensinaram-nos ? Bom, o termo é lisonjeiro para a generalidade dos instrutores... O exército, nesse tempo, não se preocupava muito com a pedagogia. (Que era, por defeito, aquela que já conhecíamos, de casa e da escola, a do pau e da cenoura.)

A expressão Safety First (a segurança em primeiro lugar) é uma variante deste slogan. Em muitos casos, não passa(va) de um chavão. Num país como o nosso que, na época, ficava mal na fotografia europeia da sinistralidade por todas as causas (e nomeadamente, acidentes de trabalho, de lazer e de viação).

Todavia, numa abordagem sociotécnica, deixa de ser apenas um mero slogan de cartaz, "securitário", obrigatório por lei, e que a gente pode ler nos taipais de um estaleiro da construção civil, quando passamos na rua, para se tornar um princípio estruturante da relação entre homens, tecnologia e organizações.

Em "sistemas sociotécnicos", complexos e abertos, entende-se que o desempenho organizacional (numa empresa, numa hospital, numa escola, num quartel...) depende da interdependência entre o sistema social (pessoas, formação, cultura, comunicação, relações de poder) e o sistema técnico (ferramentas, processos, máquinas).

O que é isso significa na prática ? Eis aqui os alguns dos seus  princípios:

(i) A segurança como propriedade emergente

Na abordagem sociotécnica, a segurança não é um kit, algo que se "instala" numa máquina; é uma propriedade emergente.

Não basta ter o software mais seguro ou o melhor hardware (equipamento técnico) nem mesmo o mais competente e dedicado humanware  (as pessoas, os operadores, os recursos humanos)... É preciso verificar se a cultura organizacional  não é accident-prone,  propensa ao acidente: por exemplo, se pressiona no sentido do one best way, de metas inatingíveis, de prazos impossíveis, da lógicas de custo-benefício.

O Safety First implica que a segurança surge do ajuste harmonioso entre as capacidades humanas e e as limitações técnicas, e vice-versa,  as limitações humanas e as capacidades técnicas.

(ii) O erro humano como sintoma, não como causa

A abordagem sociotécnica inverte a lógica tradicional de culpa e da dicotomia simplista erro humano / falha técnica:

  • o operador errou porque foi negligente (explicação tradicional ou de senso comum) e, portanto, deve ser admoestado ou punido;
  • o "erro" é um sintoma de um deficiente  design técnico (concepção e planeamento),  ou de uma organização do trabalho disfuncional (visão sociotécnica).
Colocar a segurança em primeiro lugar significa então "desenhar" (conceber e planear) sistemas que sejam tolerantes ao erro, onde o sistema técnico protege o humano e o humano tem autonomia para intervir no sistema técnico. Ou seja, não há determinismo tecnológico.


(iii) O equilíbrio entre eficiência e segurança (ETTO)

Existe um conceito central chamado Efficiency-Thoroughness Trade-Off (Compromisso entre Eficiência e Rigor).
  • no dia a dia das organizações, há uma tensão constante: ser rápido (eficiente, fazer depressa, com redução de custos) vs. ser cuidadoso (fazer bem, com segurança, com rigor, com qualidade);
  • Safety First em termos sociotécnicos significa que a organização valida e apoia o trabalhador quando este escolhe o rigor em detrimento da velocidade, garantindo que os incentivos financeiros ou imperativos produtivos não atropelam os protocolos de segurança.

(iv) Duas lógicas de gestão opostas:

  • Prevenção de "custos de acidentes" (diretos, indiretos e ocultyos)

Na lógica sociotécnica, o custo de implementar medidas de segurança (formação, treino, redundâncias, ergonomia) é quase sempre inferior ao custo do desastre, do acidente (acarretando danos materiais e pessoais). A efetividade é medida pela continuidade operacional e a integridade da vida humana. 

 Custo: implementação de protocolos, programas de saúde, segurança  e bem-estar   

Efeito: zero acidentes, interrupções, erros,  danos (pessoais e patrimoniais).

  • Fator humano como investimento

Diferente da visão tradicional, puramente mecanicista, a análise sociotécnica entende que trabalhadores / operadores seguros e bem integrados no sistema tecnológico produzem mais e melhor.

Segurança psicológica: aumenta a proatividade e a detecção precoce de erros.

Ergonomia: reduz o absentismo, melhora a qualidade de trabalho, aumenta a longevidade da força de trabalho.

  • Sustentabilidade do sistema

Uma organização que negligencia a saúde e a segurança no trabalho  pode ter um bom "custo-benefício" a curto prazo (economiza em equipamentos, software, pessoal de saúde e segurança no trabalho), mas não é custo-efetiva a longo prazo, pois o sistema torna-se frágil e propenso a acidentes, falhas, erros, colapsos, que podem destruir a imagem, a cultura, o clima, o moral, a reputação ou a viabilidade da empresa.

Em resumo:

Visão tradicional (Custo-Benefício):
  • segurança é um custo que reduz a margem de lucro;
  • foco no retorno financeiro imediato das medidas;
  • o erro humano é uma falha a ser punida.

Visão sociotécnica (Custo-Efetividade)
  • segurança é a base que permite ao sistema funcionar sem falhas;
  • foco na resiliência e na otimização da relação homem-máquina;
  • o erro humano é um sintoma de um sistema mal desenhado.

Resumo das Dimensões

Dimensão | O que Safety First exige
  • Técnica | Interfaces intuitivas, mecanismos de paragem de emergência, redundâncias
  • Social | Cultura de confiança e de participação onde se pode reportar falhas sem medo de ser punido 
  • Organizacional | Priorização da  segurança nas decisões de topo, não apenas ao nível operacional.

II. O "desastre" (sic)  do Cheche (6 de fevereiro de 1969) devia, nas nossas "escolas de guerra",  ser um caso de estudo,  trágico e paradigmático,  de como a falha num sistema sociotécnico sob pressão extrema conduz entropoia, à catástrofe, in limine,  à morte. 

No contexto da retirada de Madina do Boé, a segurança foi sacrificada por imperativos operacionais (e quiçá políticos), resultando na morte de 47 homens (46 militares e 1 civil) no Rio Corubal. Tudo parecia correr bem, quando se respeityaram as normas de segurança.

Analisando o evento pelo prisma sociotécnico:

(i) Sistema técnico: a jangada e o rio

O "sistema técnico" aqui era composto por um jangada improvisada, um "sintex" com motor fora de bordo e a própria geografia do Rio Corubal.

Falha de "design" (incluindo a conceção e o planeamento da operação): 

  • a jangada não foi projetada para o peso excessivo de dezenas de homens com equipamento completo, nem para a instabilidade de um rio, relativamente largo e com corrente;
  • foi feita a "olhómetro", com materiais locais (canoas...)  e aparentemente não foi testada;
  • confoiu-se na experiência dos operadores;
  • degradação técnica: a travessia do rio em Cheche ocorreu, na sequência de uma operação (Mabecos Bravios) após a retirada do quartel de Madina do Boé, em contexto e em clima de  guerra;
  • a compamhia de Madina (CCAÇ 1790) estava isolada há mais de um ano e sujeita a frequentes ataques e flagelaçóes (c. duas centenas e meia);
  • a distância  de 40 km entre Madina do Boé e Cheche foi feita sob grande stress físico e piscológico:
  • o equipamento (jangada, sintex...) estava sob esforço máximo.
O "gatilho": a inclinação da jangada fez com que a água entrasse nas canoas, eliminando a flutuabilidade e provocando o pânico (independentemente de ter havido ou não uma detonação numa das margens do rio).

(ii) Sistema social: exaustão e hierarquia

  • o fator humano estava no limite da resistência física e psicológica;
  • pressão temporal: havia uma pressa crítica para retirar a tropa da zona, eventualmente com  o receio de um ataque ou flagelação do PAIGC que, à distância, acompanharia a operação;
  • a pressa é a inimiga clássica da segurança sociotécnica (Efficiency-Thoroughness Trade-Off);
  • cadeia de comando: em sistemas de alta fiabilidade, a segurança exige que qualquer elemento possa interromper a operação se detetar perigo ou risco; este princípio é, de algum modo, incompatível com o princípio da unidade comando-controlo em vigor num exército clássico.
No Cheche, a estrutura militar rígida e a urgência da retirada impediram que o bom senso (não sobrecarregar a jangada) se sobrepusesse à ordem de ganhar tempo e de avançar.

  • pânico: sociotecnicamente, o pânico é uma resposta à quebra de confiança no sistema técnico;
  • quando a jangada adornou, o sistema social colapsou.

(iii) A falha organizacional: o Safety First inexistente

A nível macro, a decisão de abandonar Madina do Boé foi uma decisão política e estratégica de alto risco. Terão sido ponderados todos os prós e contras ?

Falta de redundância: um princípio sociotécnico essencial é a redundância (ter um plano B).

No Corubal, não havia meios de salvamento, botes pneumáticos, fuzileiros, mergulhadores, e outro pessoal da marinha (exceto o condutor do sintex),   boias, coletes salva-vidas..., coisas que hoje são elementares numa simples passeio de barco no estuário do rio Tejo,

Havia apoio aéreo, mas terá faltado um grupo de combate de paraquedistas, fuzileiros ou comandos, helitransportado,  que fizesse a cobertura e a segurança próxima dos últimos homens de infantaria  (mais de 100) a retirar.

A operação parece ter sido  do tipo "tudo ou nada"...

Invisibilidade do risco: o comando da operação, focado na logística da retirada, subestimou o perigo da travessia física (a "cambança"), tratando-a como um detalhe tático ou operacional e não como o ponto crítico (ou até o mais crítico) da missão.

Comparação sociotécnica:


Madina do Boé vs. Segurança integrada (ou vista hoje)

Elemento  | No Desastre do Cheche (1969) | Numa Operação Safety First |

  • Carga |  Excesso de peso para cumprir horário | Limites técnicos respeitados rigorosamente
  • Comunicação | Silêncio rádio e pressão de comando | "Cultura justa e responsável" (capacidade de dizer "não")
  • Equipamento | Improvisação sob stress | Certificação e redundância de meios.
  • Ambiente |  Hostil e imprevisível | Monitorização e mitigação de riscos ambientais.

O "desastre" do Cheche demonstra que, quando o sistema técnico (a jangada rebocada por sintex) é precário e o sistema social (os soldados) está exausto e sob pressão externa, qualquer pequena variação pode levar ao colapso total. 

É a negação absoluta do Safety First em prol da sobrevivência operacional, que acabou por ditar a maior tragédia da guerra colonial na Guiné. Não, não foi um acidente, "como tantos outros".  Foi um risco estatisticamente previsível, resultante de uma falha do sistema sociotécnico. Tal como o acidente de trabalho ou um "desastre" ferroviário. 
____________________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 10 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27722: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (1): Os desastres (do Cheche a Alcácer Quibir das Cheias de 1967 à tempestade Kristin) e a teoria do bode expiatório

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27722: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (1): Os desastres (do Cheche a Alcácer Quibir das Cheias de 1967 à tempestade Kristin) e a teoria do bode expiatório

1. Nunca é demais lembrar esta trágica efeméride (o "desastre do Cheche") e honrar a memória dos nossos camaradas que lá ficaram, nas águas turvas e nas margens do rio Corubal. Foram 47 vítimas inocentes de uma guerra que não tinha fim à vista e era cada vez mais sem sentido (para ambos os lados).

"Desastre", em contexto de guerra, é sempre um eufemismo. Pode até ser um insulto. Para as Forças Armadas Portuguesas, da época, não havia suicídios, homícidios, automutilações, e outros atos de violência autoinfligida.
  

A verdade é que estes nossos camaradas não se suicidaram nem morreram por ação direta do inimigo. Em combate. Mas morreram pela Pátria. Aos 21, 22, 23 anos. Em plena juventude.  A última coisa que queriam era morrer. No Cheche. Na cambança do rio Corubal. Deixavam para trás o inferno de Madina do Boé. 

57 anos depois, a vida continua, a Pátria continua... E alguém sabe lá onde era esse sítio de cambança do Rio Corubal, que uns chamavam Cheche, outros Ché-Ché... "Tchetche" dizem os locais. (Na carta de Jábia, o cartógrafo grafou "Ché-Ché" e a gente devia seguir a sabedoria dos nossos cartógrafos que chegaram a ser os melhores do mundo... Dizem. Não sou bom em cartografia.)

A vida é curta. E a memória ainda mais. Cabe-nos honrar a memória dos que morreram. Uma frase estafada.

2. Diz o nosso querido amigo e camarada Carlos Pinheiro (em comentário, na página do facebook da Tabanca Grande | 6 fev 2026, 11h30)

Eu estava lá, em Bissau, e devo ter sido dos primeiros a receber a triste notícia porque estava no STM no QG/CTIG. 

Dois sobreviventes, da CACÇ 1790,  vieram parar ao meu serviço como estafetas. Um era um soldado normal mas o outro era analfabeto e mal sabia falar.
Estiveram meses a viver debaixo do chão mas um senhor de muitos galões insistiu que o abandono de Madina do Boé se realizasse nas jangadas constituídas sobre três canoas.

Ao princípio a operação corria bem mas na última travessia uma das canoas estava partida e a jangada, com tanto peso mal arrumado, afundou-se. Foi uma grande tragédia.

Mas o Coronel,  que estava ao longe a comandar a operação, no 10 de Junho a seguir foi condecorado no Terreiro do Paço. Era assim...

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026 às 12:42:45 WET



3. Permito-me, na minha qualidade de "marginal-secante",  alinhavar duas ideias sobre o caso:

Carlos, eu (ainda)  não estava lá... Parece que é preciso "ter estado lá" para falar de cátedra. Lá, no meio dos acontecimentos,  na cratera do vulcão, no epicentro do terramoto... Adiante: nunca fui ao Boé, mas andei por esses rios (o Geba), e o Corubal (nas margens.). Fiz muitas "cambanças" (de canoa) no Geba. Nunca andei de jangada. Aquelas águas, barrentas, sujas, na época das chuvas, metem respeitinho.

Conheci a malta do BCAÇ 2852 a que pertencia a CCaç 2405... O "desastre de Cheche" ainda era comentado, quando eu cheguei a 2 de junho de 1969 a Contuboel e,  mês e meio depois, a Bambadinca, E conheci malta que lá esteve, na retirada de Madina do Boé.

Temos, de resto, vários camaradas dessa subunidade, a CCAÇ 2405, Os "Baixinhos de Dulombi",  que integram a Tabanca Grande, e nomeadamente os quatro alferes: o Rui Felício, o Paulo Raposo, o Jorge Rijo e o Victor David (infelizmemnte já falecido em 2024)...
Quando cheguei à Guiné, em finais de maio, ainda se falava, com comoção, do desastre do Cheche... Como se falava de Gandembel,  abandonad pela NT em finais de janeiro desse ano.  Foi um ano de muitas emoções.

Por outro lado, não é verdade que o cor inf Hélio Felgas (1920-2008) "estava ao longe a comandar a operação"... O homem viveu ao milímetro a Op Mabecos Bravios,  do planeamento à execução, do  pionés no mapa à caixa de velocidades das GMC. É verdade que malta de Madina vivia como toupeiras.

E verdade que o coronel recebeu a Torre e Espada um ano e tal depois, no 10 de junho de 1970. E depois? O Estado Novo precisava de heróis. Eu não sei se a condecoração é "justa ou injusta". Não sei (nem sequer me interessa saber) os seus fundamentos. 

Claro que nessa época, em plena guerra colonial, os critérios teriam que ser, tendencialmente, os político-militares.  Hélio Felgas, que eu saiba, nunca contestou o regime. Não conspirou. Não cuspiu na sopa, como dizem os que se arrogam o monopólio do patriotismo cego e incondicional. Quem dá as honras, sabe a quem e porquê.

Mas vamos ao essencial: é "humano" arranjar um bode expiatório... Para o desastre do Cheche, ou outros mais recentes ou recuados no tempo, sejam militares ou naturais: Alcácer Quibir, as cheias na Grande Lisboa em 1967, a tragédia de Pedrógão Grande em 2017, a tempestade Kristin em 2026...

A teoria do bode expiatório é um dos mecanismos psicológicos e sociais mais persistentes da história da humanidade. É extremamente perigosa porque tende a simplificar o que é altamente complexo (o "caos", para o homem comum: terramotos e desastres naturais, pandemias, por exemplo, mas também outras catástrofes como a guerra, incêndios, acidentes brutais de comboio ou avião, naufrágios, etc.) convertendo uma "culpa coletiva" (?) ou um "azar sistémico" (?) num alvo individualizado.

Na idade média, e até tarde, os médicos eram judeus (ou cristãos-novos). Sanches Ribeiro, natural de Penamacor (a terra do recém-eleito Presidente da República) foi o nosso maior médico do séc. XVIII. Mas teve que se pôr na alheta para não cair nas malhas da Santa Inquisição, que foi uma máquina de matar "herejes" e sacar-lhes o património. Morreu em Paris.

No caso da Op Mabecos Bravios, o bode expiatório só poderia  seria o seu comandante, o cor inf Hélio Felgas, que é para isso que  os comandantes (também) servem. É um facto que no ano seguinte foi ao 10 de junho receber a sua "Torre e Espada" (o galardão mais cobiçado por um  militar português). 

Não sei se podemos estabelecer alguma associação, muito menos de causa e efeito: não faria qualquer sentido. Ninguém recebe uma condecoração por um desastre.  A verdade é que, para a história, o seu nome ficará para sempre associado ao "desastre do Cheche".

Quando a "desgraça" nos bate à porta, como nos dias de hoje (de Leiria a Alcácer do Sal), o "homem comum" raramente busca as causas complexas dos fenómenos (militares, sociais, demográficos, económicos, naturais, ambientais, etc.) ou assume a quota-parte (mesmo ínfima) de responsabilidade que lhe cabe, enquanto cidadão, munícipe, consumidor, contribuinte,  predador, poluidor, etc..

A nossa tendência é arranjar logo um rosto para culpar, bater e odiar. Em geral, alguém (ou algum grupo) fora do nosso "círculo" de influência, conforto, território, pertença... No passado, os bárbaros, os hunos, os mouros, os infiéis, os judeus, os médicos, os hereges, os cristãos-novos, os jacobinos, os maçons, os fascistas, os comunas... Agora há muitos mais...

Será assim uma tendência "tão" instintiva? Afinal, somos "primatas", dizem os zoólogos... Como explicar as "desgraças" de que somos vítimas?

Talvez estas pistas da área da psicologia social ajudem a explicar o fenómeno:  (i) redução da ansiedade; (ii) sentimento de controlo (mesmo falso); (iii) coesão grupal e (iv) mecanismo da desgraça.

A incerteza é insuportável para o ser humano. Os gregos consultavam a pitonisa de Delfos antes de tomarem grandes decisões. Os calvinistas e os luteranos criaram a "teoria da predestinação":  eu não sei se estou condenado ao céu ou ao inferno,  é uma angústia insuportável para mim, cristão; mas Deus manda-me sinais de que estou no bom caminho: tenho sucesso, ganho dinheiro, invisto que o ganho, sigo  a lógica do custo-benefício, sou racional... 

Na maioria dos casos, é  mais reconfortante acreditar que existe um "vilão" específico causando o problema do que aceitar que o sistema (sociotécnico, "societal", o Estado e a sociedade, a economia) falhou ou que o azar (o "fatum") é aleatório. Ou então alimentar o "sebastianismo"...

Se há um culpado, a solução é fácil: basta eliminá-lo, puni-lo, isolá-lo (os "terroristas", os "insurgentes", as "minorias", os "feios, porcos e maus", etc.) para que a "normalidade" seja restabelecida. Quase por magia.

Nada une tanto um grupo quanto a existência um "inimigo comum" (cristãos 'versus' mouros, brancos 'versus' pretos, puros 'versus' impuros, colonizadores 'versus' colonizados, etc.). 

Apontar o dedo (ou a arma) para "o outro", fortalece o "espírito de grupo", ao mesmo tempo desvaloriza, ignora, escamoteia, nega ou faz esquecer as nossas próprias fissuras internas, as nossas divergências, as nossas fraquezas, as nossas misérias, etc.

Há ainda o mecanismo da "desgraça": isso tem a ver com a nossa cultura judaico-cristã... O termo tem origem bíblica (o ritual do Levítico, onde um animal carregava simbolicamente os pecados do povo "eleito" para o deserto).

Transposto para os dias de hoje, esse mecanismo opera em várias escalas:

(i) a família: o "filho problema" (drogado, psicótico, vagabundo, falhado, criminoso,  marginal, 
etc.) absorve as tensões de um casamento infeliz;

(ii) empresa / organização / grupo empresarial: o gestor ou o CEO demitido pelos "maus resultados" imputáveis à "crise económica; ou, exemplo mais comezinho, o treinador de futebol... que "paga as favas" dos maus resultados da equipa;

(iii) sociedade / Estado / Nação: minorias ou estrangeiros que são culpados por crises económicas, derrotas militares, pandemias, etc. (veja-se o que se passou com a ascensão de Hitler ao poder; ou, na idade média, a acusação de que eram os judeus e os médicos a evenenar os poços de água, provocando a "peste", do latim "peius", a "pior doença"...

É mais fácil usar o chicote (num desgraçado) (fisica e metaforicamente falando) do que sentarmo-nos à mesa para aprender com a análise partilhada de um problema (causas próximas e remotas, processo, consequências) de modo a prevenir ou atenuar os efeitos de problemas mais graves no futuro...

A onda de populismo, negacionismo, irracionalidade, autoritarismo, ódio (contra a ciência, a arte, a cultura, as elites, a democracia, as liberdades e garantias, a Constituição, ), etc. que varre hoje o mundo (de Portugal aos EUA, da Rússia à China, etc.), tem muito a ver com essa teoria do bode expiatório.

Carlos, recuso-me, por isso, em entrar na tentação de procurar um "culpado" para o desastre do Cheche... Ainda falei com o major-general Hélio Felgas antes de morrer... Pareceu-me um homem que amava o seu país e que tinha orgulho na sua condição de militar. Outras posições mais polémicas que tomou, não comento. Não sei o texto nem o contexto: por exemplo, a Op Lança Afiada (8-19 de março de 1969, Sector L1).

Não o absolvo nem o condeno, não o glorifico nem o demonizo: o nosso blogue não é, felizmente, um tribunal da História.

Mas se eu fosse professor da Academia Militar juntaria este caso ("o desastre de Cheche") à minha casoteca. Devemos aprender com os erros.  Em Porttugal, infelizmente, não nos damos a esse trabalho.

Não vou analisar o caso: eu, que escrevi tanto, ao longo de 40 anos, sobre saúde e segurança no trabalho, sei que todos os acidentes são de etiologia multifactorial: acusar o maquinista do comboio de "erro humano" ou desculpar o acidente por "falha técncia", é a mais redutora e simplista das explicações. 

No caso de Cheche, houve uma "falha" de um sistema, em termos mais simples, o sistema homem-máquina. Não li o relatório encomendado ao cor cav Fernando Cavaleiro, herói do Como.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27720: Casos: a verdade sobre... (63): o "cemitério de Cheche"

Foto nº 1A, 1B, 1 > Guiné > Região do Boé  >  "Cemitério à beira do Rio Cheche" (sic)... Estranha (e perturbante) foto do Arquivo Amílcar Cabral, sem legenda nem uma data precisas (1963-1973)... Estas cruzes só podem ser de militares portugueses, mortos por afogamento na travessia do Rio Corubal, em Cheche, em 6/2/1969... Devem ser captadas por gente do PAIGC.  Parecem ser 11 campas improvisadas, 8 assinaladas com cruzes de ferro e 3  em madeira.

Fonte: Instituição:Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 05360.000.124 | Título: Cemitério à beira do rio Cheche | Assunto: Cemitério à beira do rio Cheche, Guiné-Bissau | Inscrições: Cheche. | Data: 1963 - 1973 | Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral | Tipo Documental: Fotografias |

(1963-1973), "Cemitério à beira do rio Cheche", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43446 (2026-2-9)
Foto nº 2 > Guiné > Região do Boé  > Cheche > Parecem ser restos do destacamento de Cheche, abandonado pelas NT em 6/2/1969, aquando da retirada de Madina do Boé.  A sua missão era proteger a jangada que fazia a cambança do rio Corubal. Ficava na margem esquerda. Chegou a lá haver uma pequena povoação.

Instituição: Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 05360.000.251 | Título: Depósito de combustível, em Cheche | Asunto: Depósito de combustível, em Cheche, localidade junto ao Rio Corubal. | Inscrições: Cheche | Data: 1963 - 1973 | Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral | Tipo Documental: Fotografias

(1963-1973), "Depósito de combustível, em Cheche", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43064 (2026-2-7)



Guiné > Região de Gabu > Carta de Jábia (1961) > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Ché Ché, na margem esquerda do Rio Corubal.  (Habituámos-nos a a grafar o topónimo como "Cheche". Mas na carta de Jabiá vem Ché Ché.)

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


1. Ao que parece não foram resgatados nenhum corpos das 47 vítimas, por afogamento, na travessia do rio Corubal, em Cheche, na manhã,  de 6/2/1969, quinta feira. Foi a última travessia efectuada. A coluna (5 dezenasd de vituras) seguiu para Nova Lamego:

(...) " O Comandante da Operação  [cor inf Hélio Felgas] não permitiu que as duas Companhias [CCAÇ 1790 e CCAÇ 2405] permanecessem no Ché Ché para tentarem recuperar o maior número de corpos possíveis, seguindo por isso logo para Nova Lamego" (...).(*)

O cor inf Hélio Felgas, mais tarde, em 1995, já brigadeiro na reforma, escreveria:

(...) Aguardámos horas, com o helicóptero sobrevoando o local na esperança de localizar alguns dos desaparecidos. Dois ou três bons nadadores também mergulharam na zona onde acorrera o acidente. Nada foi encontrado.(...) (**)

No dia 20, quinta feira, duas semanas depois depois (!),  é que alguns corpos (11)  serão  resgatados a  jusante: a dúvida é saber exatamente em que local do rio.

No dia 20 de fevereiro de 1969, uma equipa de mergulhadores-sapadores da armada, após várias operações de busca, a cerca de 400 m a  jusante do local do acidente,  terão conseguido resgatar  os restos mortais de 11 militares (de resto, irreconhecíveis)

Outra dúvida: teriam sido, ou não, seguidamente helitransportados para Bissau e sepultados no cemitério municipal, no talhão dos combatentes ? Ficaram as cruzes e levaram os restos mortais dos nossos camaradas  ? Não nos parece. Os corpos deviam estar em adiantado estado de putrefacção.

E já agora: porquê 8 cruzes de ferro e 3 de madeira ? Teriam sido trazidas de Bissau, obviamente, as cruzes de ferro (que são do mesmo modelo das  usada no talhão dos combatentes portugueses,  no Cemitério Municipal de Bissau). E essas só podem ter sido colocadas pelas NT.

As cruzes de madeira temos que admitir que tenham sido improvisadas por gente da população local, fula, que conheciam os "tugas" antes da independência. De qualquer modo,  a foto  nº 1 tem se ser da época do acidente (1969). O Arquivo Amílcar Cabral só contempla imagens e outros documentos com datas até 1973 (ano da morte de Amílcar Caberal). Por outro, é de todo improvável  que estass inprovisadas e precárias  sepulturas tenham sobrevido às cheias que vieram logo a seguir, na época das chuvas de 1969.


Guiné-Bissau > Bissau > Cemitério Municipal > Talhão Militar Central > Abril de 2006 > Monumento que celebra os soldados portugueses, mortos nas diversas "campanhas de pacificação" da Guiné, desde a Campanha do Geba (1890) à Campanha do Cuor (1907/08), passando pelas Campamhas do Oio e Bissorã (1913), onde se destacou o Capitão Diabo, Teixeira Pinto. Este cemitério tem três talhões, reservados aos combatentes portugueses mortos em campanha).

Foto ( e legenda): © Hugo Costa (2006).Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Mais provável é que que  o brigadeiro  Spínola (acompanhado de um  capelão de Bissau) tenha  assistido a esta delicada operação, como de resto era sua intenção,  operação que foi enquadrada por fuzileiros especiais e terá tido forte apoio aéreo.

Estas 11 cruzes da foto nº 1 vêm baralhar a nossa narrativa, também por causa da sua localização...  A foto do Arquivo Amílkcar Cabral tem como legenda: 

"Cemitério à beira do Rio Cheche" (sic).

Ora, não há nenhum rio Cheche, perto do local onde se deu o acidente. Há vários afluentes do rio Corubal, a montante e a jusante de Cheche (vd. carta de Jábai): o mais perto, é o rio Campossabane, a 600 metros,  a montante; a jusante, temos o rio Cambengoi (ou Cambengol), a 3,5 km;  o rio Canchã, a 7,5 km; e o rio Ché Ché Piri, muito mais longe, depois de várias curvas e contracurvas  do Corubal (vd. carta de Padada). Todos afluentes deste.

As cruzes foram colocadas pelos fuzileiros que terão recuperam alguns corpos, no dia 20 de fevereiro de 1969. Irreconhecíveis.

 A legenda deve, pois, estar errada. O rio Ché Ché Piri, afluente do Rio Corubal, ficava a jusante do local da tragédia, uns largos quilómetros abaixo. 

A seguir a Ché-Ché, uns 4 km, no sentido jusante, o rio Corubal fazia uma curva de 90 graus. A corrente deve ter arrastado os corpos. As margens aqui eram altas, cota 40/50. Estamos na época seca, o rio tem muito menor caudal, mas mesmo assim  a corrente era forte, segundo os testemunhos da época.


Guiné > Região de Gabu > Carta de Padada (1959) > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Burmeleu, do  rio Ché Ché Piri, e de um troço do rio Corubal,  largos quilómetros a jusante do antigo destacamento de Ché Ché (na estrada Nova Lamego - Madina do Boé)

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


De qualquer modo, esta foto deve ter sido tirada por alguém do PAIGC e enviada para Conacri. É a única referência (mesmo que indireta) que encontrei, no Arquivo Amílcar Cabral, a esta brutal tragédia que nos enlutou.

Há cinco referências a Cheche  (topónimo) no Arquivo Amílcar Cabtral:
  • as duas que publicamos acima (fotos nºs 1 e 2);
  • e, por fim, uma mensagem urgente do Secretário Geral, para o Boé, com data de 29 de janeiro de 1971, com informações sobre "uma grande ofensiva militar portuguesa no Boé (concentração das forças inimigas em Cheche)", solicitando-se ao Humberto e ao Silvino preparação cuidadosa da defesa da região e ligação permanente com o Secretariado Geral.
O erro no título ("Cemitério à beira do Rio Cheche" também pode ser imputado, eventualmente, aos ténicos da Fundação Mário Soares que trataram o Arquivo Amílcar Cabral. Mas inclinamo-me mais para a hipótese de ter sido legendada por gente do PAIGC, que conhecia mal o nome dos rios naquela zona. 

O António Rosinha reconheceu o local, onde esteve em 1986: ficaria a " montante da jangada menos de 100 metros na margem esquerda do rio" (!)... e não a jusante, como imaginávamos nós...(afinal, todos os rios correm para foz).

A haver ali um rio era o  o rio Campossabane, a montante,  a meio quilómetro de Cheche (segundo a carta de Jábia).  

2. Já tínhamos publicado em tempos esta foto (nº 1) que mereceu diversos comentários de dois  camaradas que conheceram a zona (*)

De qualquer modo, Cheche era  passagem obrigatória para quem vinha de Nova Lamego até Madina do Boé (e Guiné-Conacri) passando por Canjadude, sede da CCAÇ 5 (Os Gatos Pretos, a que pertenceu o fur mil trms José Martins, 1968/70). 

E a verdade é que ainda hoje não há ponte nenhuma, ali, no Cheche, para facilitar as comunicações com  o país vizinho. E, se calhar ainda bem (por razões ambientais).

(i) O nosso camarada José Martins pode esclarecer-nos melhor sobre onde terá sido tirada a foto.

(...) Esta foto, para mim, não é só surreal como ofensiva. A zona de Burmeleu, a jusante do Cheche, não tem as margens como a imagem sugere.

A tragédia ocorreu no rio Corubal e não no Rio Ché Ché Piri. Acho muito estranho que os militares do PAIGC, mesmo depois da independência, fossem retirar cruzes das campas dos militares portugueses, para as colocar ali.

Alguns corpos foram recolhidos por guineenses, mas não prestariam esta homenagem, até porque ocuparam o espaço de cemitérios com novas moranças, como se viu em reportagens televisivas, na zona de Bafatá. (...)

(ii) O Antº Rosinha que foi cooperante na Guiné, como topógrafo, depois da independência,  conheceu o local (em 1986):

(...) penso que aquele lugar fica a montante da jangada menos de 100 metros na margem esquerda do rio.

Evidentemente que ali não há cemitério nenhum. Pode ter havido ali algum tipo de cerimónia de militares nas margens do rio, como se costuma fazer de pôr uma cruz e flores à beira da estrada onde morre de acidente um familiar.

Aquele rio chega, ou chegava quando a Guiné estava mais longe do deserto que é hoje, a ter cheias em que esse lugar está debaixo de água.

Este acidente deu-se no tempo seco, e as chuvas começam em maio /junho (e vão até outubro/novembro),.

Ali é difícil o acesso às margens junto à agua, devido aos grandes arbustos que se debruçam sobre a água, e aquele lugar (que é igual àquele que eu penso) é alcantilado (arriba) mas sem os tais arbusto fechados.

Conheço bem o lugar, porque trabalhei como cooperante das Obras Públicas vários dias a tentar pôr aquela jangada e seus acessos funcionais, em 1986.(...)


(Não sei se é verdade tudo o que eu digo, mas o que digo é apenas o que vejo)

A imagem que se consegue ver no Google é apenas em cheias, pelo que não se vê este pormenor da margem que eu digo.

Mas a foto ou foi tirada de canoa ou de algum bote de fuzileiros, pois como se vê aquilo é uma arriba de dificil acesso, mesmo para uma foto, quanto mais para fazer sepulturas.

Em arribas não se fazem cemitérios, embora lá se encontrem dinossauros.

Contemos a história, e em memória dos que morreram, mesmo sem pôr cruzes, afirmar que não foram eles os culpados de haver tantos guineenses junto ao arame farpado de Ceuta. (...)

sábado, 6 de fevereiro de 2016 às 11:20:00 WET

Enfim, fica aqui o desafio aos nossos leitores para trazerem novos contributos para o esclarecimento deste "misterioso cemitério de Cheche"(***). 


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27704 Tabanca da Diáspora Lusófona (39): (In)confidências: fui para Montariol, em 1954, com 10 anos, pela mão do João Maria Maçarico (n. 1937), e para a tropa aos 19, em 1964... (João Crisóstomo, Nova Iorque)



EUA > Nova Iorque > Mineola > 2018 > Vilma Kracun Crisóstomo e João Crisóstomo,   na Parada alusiva ao Dia de Portugal,  em Mineola, NY, 10 de junho de 2018: 



1. Mensagem do nosso John Crisóstomo, o luso-americano régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona   (*) 

João Crisóstomo, membro da nossa Tabanca Grande, com 290  referências no blogue, a viver em Queens, Nova Iorque, ativista social, ex-alf mil inf, CCAÇ CCAÇ 1439 (Xime, Bambadinca, Enxalé, Porto Gole e Missirá, 1965/67).


Data - 4 fev 2026 08:17
Assunto - Comentário ao poste P 27695 (**)

Pus-me a escrever um comentário ao poste 27695 e depois ficou tão grande que não tive coragem de o publicar

Permito-me uma “confissão", uma conversa com os meus camaradas, pois que, como irmãos que somos pelo que todos experimentámos, sei que a maioria vai compreender e aceitar este meu “desabafo", que talvez seja coisa que suceda com outros também. 

Creio que um dos muitos benefícios que este blogue tem proporcionado a muita gente, é exactamente o de uma "catarse" terapêutica (do grego kátharsis, "purificação"). A mim, pelo menos, tem-me ajudado.

É que tenho vindo a seguir, mais ou menos, os postes relacionados com o saudoso Horácio Fermandes (1935-2025) e sei que devia fazer uns comentários ao muito que se tem escrito. E não o tenho feito. "Desculpas de mau pagador" nunca são boas, por melhores que elas sejam e por mais voltas que se lhe deem; e portanto não mereço desculpas.

Não sei se virei “bipolar”, pois de vez em quando tenho momentos de muita energia para logo voltar ao mesmo marasmo. Explicarei apenas que,  de há bastante tempo,  já me sinto muito em baixo e é sempre com esforço que faço algo.

Mas este poste de ontem (**) menciona o nome dum quarto Maçarico, desconhecido  até aqui,  e que eu conheço bem. 

Como o Luís Graça descreve, o João Maria Maçarico era de Ribamar e a casa dele era mesmo junto da casa do Horácio. Eu conhecia-o bem assim como o pai (mas não me lembro da mãe ) e o irmão, o Veríssimo, que emigrou para o Canadá. 

Por instruções do Padre António Alves Sabino, que era meu primo direito e que era na altura subprefeito do colégio de Montariol, o João Maria Maçarico veio-me buscar a minha casa e levou-me pela mão, literalmente, que para que os meus pais ficassem descansados. Foi no dia 7 de setembro de 1954. Eu era muito novo.

O facto do meu aniversário de nascimento ser em fins de junho levou a que eu fosse sempre muito jovem em relação aos meus colegas de cursos. Isso sucedeu até na minha entrada para a tropa onde entrei muito novo em comparação com os outros que entraram nesse dia. É que,  ao sair do seminário de Leiria,  logo verifiquei que não conseguia arranjar qualquer trabalho. Meus pais tinham dificuldades e eu queria trabalhar imediatamente mas não conseguia nada. 



João Maria Maçarico (*):  nascido em 1937, também estudou nos Franciscanos (Montariol, Varatojo, Leiria, Luz). Não chegou a ser ordenado padre. Frequentou o 4º ano de teologia. Formou-se depois em Economia e Finanças. Foi técnico superior na Portugal Telecom. Fez uma comissão de serviço em Moçambique, como alferes miliciano (1966/67). Era primo direito do Júlio Fernandes, do lado paterno, neto de Manuel Filipe Maçarico

Foto: cortesia de : Américo Teodoro Maçarico Moreira Remédio (1943-2024)- Vila de Ribamar e as famílias mais antigas: Família Maçarico: Árvore genealógica: 500 anos de história. Ribamar, Lourinhã: ed. autor, 2002.


Recordo-me que entre outros lugares onde fui pedir emprego, foi ao gerente do Banco Nacional Ultramarino (BNU) em Torres Vedras. A resposta foi a mesma que me davam em toda a parte: "faça a tropa primeiro” e depois venha falar comigo. E por isso informei-me como devia fazer para cumprir o serviço militar logo que pudesse. Fui a Santarém e aceitaram-me logo, dando-me as devidas instruções para o fazer. Entrei em Mafra,  em janeiro de 1964,  aos 19 anos! Fiz 20 anos em junho desse ano.

Ainda sobre o João Maria Maçarico: ele veio a minha casa para me acompanhar nessa primeira e longa viagem de comboio de Torres Vedras a Braga. E da estação do comboio de Braga até ao colégio de Montariol onde chegãmos à noite desse mesmo dia e me “entregou" ao meu primo.

Devo dizer que pouco ou muito pouco me valeu o facto de eu ser primo do subprefeito: vivi e sofri física e mentalmente o mesmo que o Horácio viveu e descreve no seu livro “Francisco Caboz : a construção e desconstrução de um padre”.

Eu e o João Maçarico estivemos juntos dois anos em Montariol. Depois disso,  porque ele andava sempre três anos à minha frente,  eu apenas sabia notícias dele pela família. Só o vim a reencontrar anos mais tarde,  quando soube que ele trabalhava em Lisboa na companhia de telefones (TLP, mais tarde Portugal Telecom).

E depois outra vez em 2018 ou 2019: eu soube que havia um encontro de antigos alunos em Ourém e eu quis lá ir. Convidei o Rui Chamusco e fomos. Quando lá chegámos, foi-nos dito que o encontro era apenas por vídeo, embora fossemos bem-vindos se quisessemos participar nesses encontro. E quando através dos écrãs se fizeram as apresentações e eu ouvi o nome do João Maria Maçarico,  eu interrompi para perguntar se este era o João Maria Maçarico, de  Ribamar, Lourinhã. 

Depois ficámos em contacto,  soube que ele tinha feito o serviço militar em Moçambique em 1966/67, como alferes miliciano. Mas um encontro pessoal como eu queria,  nunca foi possível e acabei por perder o contacto pois ele deixou de atender o telefone. 

Este ano, já depois do Ano Novo, quando estive em Portugal soube pela Carmitas, irmã mais nova do Horácio,  que ele está internado num lar na zona do Oeste, na Marquiteira, não longe da casa onde nasceu. Mas foi tudo o que me soube dizer.

PS1 - Estou quase a acabar de ler o livro “Os Có Boys” do Luís da Cruz Ferreira, que comprei no encontro da Magnífica Tabanca da Linha, em 14 de janeiro deste ano,  Não vou fazer comentários sobre ele pois nunca saberei fazer pertinentes comentários como os muitos que foram feitos nos postes dedicados a este livro.

Entre estes,  o teu comentário "as suas observações críticas (mesmo que 'anedóticas') sobre o quotidiano da tropa naquela época merecem, só por si, uma nota de leitura à parte” resume tudo o que se pode dizer. Acrescentarei da minha parte que o Luís Ferreira tem a minha muita admiração.
 
PS2 - Li também algures (agora não encontro onde!) um comentário/resposta a um outro do António Graça de Abreu e sua esposa em que sugeres ou pões a ideia de virem um dia "à casa do João e da Vilma" … Mas que grande ideia!

Quanto a vocês… nós e a nossa casa estamos à vossa espera desde o primeiro dia em que os encontrámos. E,  quanto a eles, eu convidei-os logo no primeiro encontro que tive com eles, se me não engano foi em Algés na primeira vez que lá fui. Se o facto de eles vierem,  ajuda a que tu e a Alice venham finalmente … Abençoados sejam todos, vai ser mesmo “manga de ronco” …

Um grande abraço nosso,
João e Vilma

(Revisão / fixação de texto: LG)
______________

Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 12 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27310: Tabanca da Diáspora Lusófona (38): Parabéns, João & Vilma, acabados de se unir com a benção de Deus, na igreja eslovena de São Ciro, Nova Iorque...Hoje, âs 10h30 locais, 15h30, em Lisboa.

(**) Vd. poste de 2 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27695 : História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VII: Ordenação, Missa Nova, professor de externato, capelão de freiras e servidor de famílias ricas na Comporta aos domingos

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27697: Humor de caserna (238): Ai, minha mãezinha, que me cortaram a p*cha! (Alberto Branquinho, "Cambança", 2009. pp. 26-29)



Capa do livro de contos de Alberto Branquinho, "Cambança: Guiné. morte e vida em maré baixa", 2ª ed.. Lisboa: setecaminhos, 2009, 99 pp. (ISBN: 978-989-602-164-1)



1. Mais uma história de "cambança(s)"(*)  do nosso camarada Alberto Branquinho (ex-alf mil art,  CART 1689 / BART 1913, Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69; advogado, escritor, duriense de Foz Coa, a viver em Lisboa, depois de ter passado por Coimbra como estudante).

"Cambança", para ele, é mais do que  "passagem para o outro lado" do rio. É uma metáfora: "por vezes uma fuga ou uma mudança. Pode ser uma partida ou um regresso. Quase sempre com a vida em maré baixa" (pág. 6).

Qualquer semelhança com a realidade da Guiné é pura coincidência, avisa o autor. Mas quem não conheceu o cabo Tomé ? E que nunca apanhou uma "cardina" ?


Ai, minha mãezinha, que me cortaram a p*cha! 

por Alberto Branquinho



− Eh,  pá! Deu a “maluca” ao Tomé. Ele vem aí.

− Qual “maluca”… Ele está é com uma “cardina” que nem se endireita.

O cabo Tomé aproximava-se daquele espaço chamado “bar”, feito de tábuas e de chapas de zinco. Vinha em tronco nu, debaixo de uma chuva contínua e miudinha, que há um mês caía sem parar. Trazia um guarda-chuva aberto, quase sem pano, na mão esquerda e uma garrafa de cerveja na mão direita. Tinha as divisas de cabo penduradas das orelhas. E berrava:

−  Cá o filho da Marianinha é o maior. Não há pai p'ra ele.

Repetia e repetia o discurso. E cantava:

O cabo festejava, assim, os vinte e três anos.

Não entrou no bar e atravessava a parada, em chinelos, calções e tronco nu, pisando água e lama. Sentia-se grande, agigantado pelo álcool, com a água a correr por ele abaixo. Sentia a cabeça do tamanho do rebentamento de uma granada de obus, a ferver, a ferver e a pôr-lhe à frente dos olhos pataniscas de bichas-de-rabear.

Era um entardecer cor de chumbo, com pequenas pinceladas de amarelo-rosa no horizonte, por cima da cobertura de zinco da caserna.

−  "Ó rosa, ó linda rosa, ó rosa"… Anda uma mãe a criar um filho… p’ra… p’ra…

Tropeçou e caiu de joelhos na lama, apoiado no cotovelo direito. Tentou levantar-se, mas o pé direito fugiu-lhe muito lá para trás. Até pareceu que o pé lhe ia fugir do corpo. Agarrou o pé com a mão direita e fugiu a garrafa. Puxou o pé, puxou, puxou, perdeu o equilíbrio, caiu sobre o lado direito e, depois, ficou deitado de costas. Ouviram-se gargalhadas do pessoal que, em volta e debaixo dos telheiros, observava a cena.

O Tomé atirou o guarda-chuva. Tentou abrir a braguilha, não conseguiu e rebolou sobre si mesmo, rindo, rindo. Cheio de lama, voltou a tentar abrir a braguilha, mas não conseguia.

 
−  Quero mijar. Eh, pá, abram-me aqui isto, qu’eu quero mijar.

Dois ou três tentaram levantá-lo.

 
−  Eh,  pá, eu só quero mijar.

Com a ajuda conseguiu levantar-se. Os que o ajudaram,  correram para debaixo dos telheiros. Conseguiu abrir a braguilha e, com a mão direita, procurava, procurava dentro dos calções, em dificuldades de equilíbrio.

 
−  Perdi a picha. Perdi a picha.

Ajoelhou-se e desatou a chorar:

 
−  Perdi a picha. Perdi a picha. Ai, minha mãezinha…

Levantou-se, escorregou na lama e caiu de novo.

 
−  Sou um desgraçado! O filho da Marianinha… Mãe, mãe, cortaram-me a gaita!

Chorava, chorava. As lágrimas corriam pela cara, misturadas com chuva e ranho. Tossia, tossia, engasgou-se e desatou a vomitar. Acudiram-lhe de novo.

Vomitava aos arrancos e estremecia-lhe todo o corpo. Levaram-no, amparado pelos sovacos.

Colocaram-no debaixo da água do “chuveiro” que corria dos bidões, ao lado da caserna. Deitaram-no na cama, ainda molhado. Chorava,  abraçado aos mais próximos, entre risos de uns e críticas de outros.

 
−  Este gajo é sempre a mesma merda.

−  Sou uma merda. É, sou uma merda… Mas não vou mais p’ró mato. Nã é, Zé? A gente nã vai mais p’ró mato, nã é,  Zé?

O Zé abanou a cabeça, concordando. O Tomé agarrou-o pelo pescoço, puxou e deu-lhe um beijo na cara.

−  A gente nã vai mais p’ró mato. Que vá o capitão, que leve o comandante e os oficiais todos. Que se fodam. P’ra que é a guerra? P’ra ganhar a taça? Que se foda a taça. Andamos aos tiros p’rás árvores. Os cabrões dos turras pintam-se de verde. Nã é,  Zé? A gente nem os vê. Deixa vir o alferes:  “Ó Tomé, tu hoje levas a bazuca.” ... “Leve-a você”!

−  Vá pá, tem calma. Vou-te buscar uma Pérrier.

−  Água?! Arranja-me uma cerveja.

 
−  Não. Tu já bebeste muito.

−  Apetece-me apanhar chuva.

 −  Não, tens que dormir. Faz-te bem.

−  Dormir? Ah.  Zé, a gente nã vai mais p’ró mato. Que se fodam. Um gajo quase na “peluda” e ir p’rá Metrópole num sobretudo de pau.

Teve um vómito e sujou a almofada.

−  Deixa lá. Está na hora do jantar. Queres que te traga alguma coisa?

−  Nã. Não.

Ficava mais calmo. Adormecia. O outro foi jantar.

No telheiro grande, coberto de zinco, que servia de refeitório, amontoavam-se para o jantar, apupando o cozinheiro.

−  Ide-vos foder! 'Ó tempo que não há frescos…

No meio do barulho das conversas ouviram-se, lá longe, para norte o som das “saídas” de granadas de morteiro pesado e de canhão.

Num instante era uma barafunda. Corriam aos magotes em várias direções, para as armas pesadas, para os abrigos, em busca das G-3 e cartucheiras.  As primeiras granadas começaram a assobiar por cima das cabeças, seguidas dos rebentamentos e dos ruídos que parecem loiça a partir-se.

Gritos, ordens, cheiro intenso, excitante a explosivos, pó, fumo, mais rebentamentos, gritos e mais gritos. Duas ou três granadas caíram dentro do quartel, voaram coberturas de zinco em placas retorcidas, pedaços de tijolo e cimento, vidros partidos. Um barracão começou a arder.

Dois grupos saíram a correr, pelas portas norte e leste, para cortarem caminhos de acesso. Parecia que o pandemónio nunca mais parava.

Começou a diminuir o fogo. Só pequenas rajadas de arma ligeira e vozes que interpelavam ou berravam ordens. Vultos apagavam o fogo com baldes de água. A serenidade voltou aos poucos. Havia movimentações para o posto de socorros. Alguns comeram como puderam o que, frio, ficara a aguardar nos pratos. Outros não saíram tão depressa dos postos ou dos abrigos.

Quando os primeiros voltaram à caserna, viram o cabo Tomé mesmo à entrada, nu, deitado de costas, de olhos espantados, como que olhando o teto de zinco, retorcido, enquanto um fio de sangue lhe escorria do lado esquerdo da boca, passava pelo pescoço e fazia uma poça de sangue debaixo da cabeça.

(Revisão / fixação de texto, links, título: CV / LG)


2. Comentário do editor LG:


Com a devia vénia, ao meu amigo e camarada Alberto Branquinho, bem como ao Carlos Vinhal,  achei que  "Ai, minha mãezinha, que me cortaram a p*cha!" é um título mais forte:  daqueles que não deixam ninguém indiferente: tem a força do calão, a dor do Tomé e a ironia trágica que só a guerra sabe criar.

"Humor de caserna" ?, perguntarãoo alguns dos nossos leitores, eventialmente chocados Sim, é um dos melhores contos da guerra colonial, que eu já li, uma narrativa  portentosa de  humor trágico: mistura o grotesco, a desolação e a ironia amarga da guerra da Guiné, que eu, o Alberto e muitos de nós conhecemos. 

A "cardina" do cabo Tomé, no dia em que fazia 23 anos, é, entre o patético e o cómico, um espelho da desumanização e do absurdo que a guerra  nos impunha, a nós, seus protagonistas. 

O final, abrupto e brutal, em três linhas e meia, é um murro no estômago: reforça a tragédia por trás do riso até então forçado. 

Não, não é só para a gente passar o tempo. É também para a gente pensar. E nos ajudar a indignarmo-nos quando vemos a nossa bandeira e o nosso fato camuflado serem usados indevidamente, na praça pública, em ambientes comicieiros, por quem não tem nada a ver com este filme e, no fundo,só pensa no seu umbigo (o mesmo é dizer, no seu ego de todo o tamanho).

3. Zé Teixeira,  Mário Fitas e Luís Graça comentaram em devido tempo:

(...) Porra! Se eu não tivesse o azar de ter passado pela Guiné, diria este tipo está a "mangar" comigo.

Depois de começar a ler, revi-me no cabo Tomé, até ao ponto da reviravolta, quando eles, os nossos "amigos" entraram na festa e fiquei arrepiado.

Veio-me à memória o Conceição Caixeiro: era de Lisboa, não bebia em demasia, era pacato e pachorrento, mas passava o tempo a cantar e a cantar morreu... Sabes aonde ? Na cagadeira, simplesmente porque estava a cagar, cantando como sempre e não ouviu a saída da granada que o vinha matar, nem o grito de vários colegas - Aí estão eles!

Ficou-se, com a nuca desfeita de encontro à parede da rectaguarda e só meia hora depois, quando à porta da enfermaria eu gritava de contente "Filhos da puta ! Cabrões ! Não há feridos", aparece  o Pedro, que faleceu há dias, e me disse: "Teixeira, vem comigo" e eu fui, para ficarmos os dois agarrados um ao outro a chorar, de desespero.

Ainda bem que escreveste. quanto me ajudaste ! (...) 


(...)  São momentos destes, que fazem esta Tabanca muito Grande. São estes os momentos em que nos tresmalhamos, nos escorregadios carreiros e nas neblinas cobrindo as bolhanhas.

Regredi! 21h00 a Companhia estava formada, o Meco (da Nazaré) segredou-me: "O  furriel  G... acabou de foder a prisioneira maneta."

A Companhia saíu. Madruga dia seguinte 05h00: o furriel  G... , o único a usar capacete, ficou com a cabeça em duas e o capacete com dois furos.

Maldita mata de Cabolol! Estavam à nossa espera!

Escreve!... Escreve, Alberto Branquinho,  mostra aos incrédulos o que foi chafurdar na lama, no álcool e na morte.

Sempre do tamanho do Cumbijã, o velho abraço.

Mário Fitas

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009 às 23:44:00 WET 


(...) São estes momentos, Alberto, Zé, Mário, que nenhuma televisão do mundo (muito menos a nossa RTP) conseguiu filmar... É um quadro portentoso sobre as nossas misérias e grandezas. 

Obrigado, Alberto, pelo teu talento, delicadeza, ternura e compaixão com que falas, não de ti, mas de todos nós, camaradas da Guiné. E viva a nossa Tabanca Grande, que nunca será nem poderá ser política, social e literariamente correcta... Nem nunca precisará de pôr um bolinha vermelha ao canto superior direito... Que o nosso quotidiano também era feito de merda, umbigos, cus, caralhos, tomates, nervos, fel, coração, massa encefálica, medos e coragens, alegria e tristeza, vida e morte... E acima de tudo, camaradagem, o cimento que nos unia, para lá de todas as nossas diferenças, reais e imaginárias... Luís