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quarta-feira, 3 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28068: S(C)em comentários (89): O "ouro branco" do caju e a "Suiça Africana (Cherno Baldé / António Rosinha)





Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Textos: Cherno Baldé / António Rosinha
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Comentários ao poste P28066 (*):


1.1. Cherno Baldé:


O autor e editor do texto (LG) fala da produção do caju pós-colonial como se tratasse de uma visão e orientação económica bem construída e aplicada no terreno.  Não há nada mais errado.

A ideia apareceu na época colonial, provavelmente nos anos 40/50, a década da visão abrangente de longo prazo e de todas as obras de infraestruturas no território iniciadas com o consulado do Sarmento Rodrigues. 

A política da promoção do caju continuou ainda nos anos 60/70, sem conseguir, todavia, uma aceitação geral no seio da população, sobretudo no Leste do território, mas já dominava em largos espaços no litoral Oeste (Biombo), Norte (Bissorã) e algumas partes do Sul (Tite e Fulacunda).

O que aconteceu no pós-25A74 é uma completa desordem na economia. O PAIGC não tinha uma política económica definida, o regime do Luís Cabral, um grande sonhador e voluntarista, quis transformar um país recém-independente, agrário, desprovido de quadros técnicos e de especialistas e sem infraestruturas,  num país industrializado, com fábricas e numa aventura de substituição de importações.

Os camponeses,  que eram o pilar da economia colonial, foram completamente ignorados, o sistema produtivo, de fomento e captação vs distribuição através da rede de lojas e armazéns no mato em que se apoiavam, foi desmantelado na tentativa forçada de criação de uma nova rede controlada pelo Estado (Armazéns do Povo), o que desincentivou a produção do amendoim em larga escala. 

As famílias camponesas, desorientadas e sem apoio moral nem material, pegaram naquilo que podiam e/ou tinham em mão e, foi assim que, rapidamente, sem qualquer decisão superior, aconteceu a corrida ao caju como meio de salvação e substituto dos anteriores produtos de renda,  combinando-se com um período de forte procura desse produto no mercado internacional.

Como uma desgraça nunca vem só, então a facilidade da sua produção, aliada ao volume das receitas, acabou por conquistar a totalidade do território e familias,  e com isso levar ao abandono das outras culturas, inclusive alimentícias como os campos de arroz e milho. 


1.2. António Rosinha:


"Os camponeses, que eram o pilar da economia colonial, foram completamente ignorados", diz o Cherno.

Claro que para o PAIGC de Luís Cabral, bem como para todos os "portugueses" do Ultramar que formaram os movimentos nacionalistas nas diversas colónias, foram anos e anos a sonhar nas riquezas que "tínhamos debaixo dos pés".

A lavoura salazarista do azeitinho, da corticinha,  da sardinhinha... termos que atiravam à cara dos transmontanos, beirões, minhotos, algarvios e madeirenses,  não era para eles.

Isso do óleo de palma, amendoim, caju...isso não era para eles.

O Luís Cabral e seus irmãos das outras colónias sonhavam mais alto. Luís Cabral queria industrializar, mesmo depois dele ainda ficou aquela de que a Guiné ia ser a "Suíça africana",

Só mesmo os barcos da Sogeral (CUF) com tripulação cabo-verdiana, gastava gasóleo para se desviar da rota de Luanda e subir o Geba até Bissau para levar uns tantos barris de vinho e aproveitava e carregava uns tantos tambores de chabéu para as suas fábricas de sabão do Barreiro.

Sem CUF e sem cabo-verdeanos não havia ânimo para uma segunda Guiné. (**).

quarta-feira, 3 de junho de 2026 às 00:14:00 WEST

(Revisão / fixação de texto, título: LG)
________________


segunda-feira, 1 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28065: Fauna e flora (29): as cegonhas-brancas do Cabo Sardão, no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina (Luís Graça)



Foto nº 1


Foto nº 2 



Foto nº 3 e 3A


Foto nº 4


Foto nº 5


Foto nº 6

Portugal > Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina >  Odemira > Cabo Sardão > 30 de maio de 2026

Fotos (e legenda): © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


1. No passado sábado, dia 29 de maio de 2026, de regresso do Algarve e percorrendo a Costa Vicentina e Sudoeste Alentejanio, até Sines, avistei e fotografei três ninhos de cegonhas brancas (Ciconia ciconia), em sítios incríveis, em rochas que se erguem a pique, sobre o mar... 

A última observação minha fora feita em 2015 (se não erro) ... Pergunto-me: o que  leva estas aves  a fazer os seus pesados ninhos, no Cabo Sardão,  que fica no concelho de Odemira, entre as praias de Zambujeira do Mar e Almograve no cima das arribas marítimas, a bastantes metros acima do mar, em locais perigosas e inóspitos, para elas próprias e para suas crias? De que é que se alimentam ? E quantos ninhos haverá mais, ao longo desta costa emblemática entyre o Cabo de São Vicente e o Cabo Sardão ?

Eis o resultado das pesquisas, rápidas, que fiz na Net, com recurso a diversas fontes, incluindo a uma ferramenta de IA (ChatGPT / Open AI):


2. As fotografias mostram um fenómeno muito especial do sudoeste de Portugal: as cegonhas-brancas a nidificar nas arribas marítimas da Costa Vicentina. Trata-se de um caso raro à escala mundial.

(i) Porque escolhem locais tão perigosos?

À primeira vista parece uma má escolha, mas para as cegonhas é exatamente o contrário (Foto nº 4). Os principais motivos são:

  • proteção contra predadores terrestres: raposas, cães assilvestrados, javalis e outros predadores (não conseguem chegar facilmente a estas plataformas rochosas isoladas);
  • escassa perturbação humana: as arribas são locais relativamente tranquilos durante a época de reprodução;
  • disponibilidade histórica de locais de nidificação: ao longo de gerações, as cegonhas regressam frequentemente às mesmas zonas onde nasceram;
  • vantagem de vigilância: de um ponto elevado conseguem observar uma grande área para procurar alimento e detetar perigos.
Apesar disso, não se pode subestimas os riscos reais:

  • quedas de crias devido ao vento; 
  • tempestades e mar agitado;
  • colapso parcial dos ninhos;
  • dificuldade de acesso em anos de condições meteorológicas adversas.

Curiosamente, os ninhos podem atingir mais de uma tonelada após muitos anos de reutilização e reforço.

(ii) De que se alimentam?

Embora estejam junto ao mar, as cegonhas-brancas do Cabo Sardão não vivem apenas de recursos marinhos. A sua dieta é muito variada, sendo aves carnívoras e oportunistas:

  • insetos grandes (gafanhotos, escaravelhos);
  • lagartos e outros répteis (pequenas serpentes)
  • ratos e outros pequenos mamíferos;
  • anfíbios;
  • minhocas;
  • pequenos peixes;
  • crustáceos (caranguejos...)  e outros invertebrados costeiros;
  • ocasionalmente restos de peixe encontrados perto da costa.

As zonas agrícolas e pastagens no concelho de  Odemira fornecem grande parte do alimento para os adultos e para as crias.

A informação sobre a dieta resulta do conhecimento ornitológico estabelecido para a espécie Ciconia ciconia, amplamente documentado em guias de aves europeias e estudos científicos. 

(iii) Quantos ninhos existem?

O número varia de ano para ano. Na costa sudoeste portuguesa, entre o litoral de Odemira e Vila do Bispo, costuma existir uma população reprodutora de algumas dezenas de casais, frequentemente entre 50 e 80 ninhos ativos, dependendo das condições anuais e dos censos realizados. (È 
uma estimativa baseada em números históricos da população nidificante da costa sudoeste; náo se encontrou  uma fonte recente e oficial que confirme esse intervalo para 2025/2026.)

VII Censo Nacional da Cegonha-branca (2024) foi realizado pelo ICNF (Instituto de Conservação da Natureza e Florestas), integrado no Censo Mundial da espécie.  mas os resultados detalhados por região parecem ainda não estar amplamente publicados.

O Cabo Sardão é um dos locais mais emblemáticos e visíveis desta população, mas os ninhos distribuem-se por vários quilómetros de arribas da Costa Vicentina.

O Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina identifica expressamente a nidificação da cegonha-branca em falésias e arribas marítimas como uma das características marcantes da região, destacando, entre os locais emblemáticos, o Cabo Sardão (onde se situa o respetivo farol,  cuja construção data de 1915; vd. foto nº 6). 

 As fotografias que tirei são muito interessantes porque mostram precisamente dois exemplos típicos dos chamados "palheirões" (fotos nºs, 1, 2 e 3) rochedos isolados junto às arribas onde estas cegonhas estabeleceram uma estratégia de nidificação praticamente sem paralelo no resto do mundo. 

Além disso, os ninhos parecem estar em bom estado e ocupados por adultos em plena época de reprodução . O primeiro ninho, em particular, mostra bem a enorme estrutura de ramos acumulada ao longo de vários anos, típica das cegonhas que reutilizam o mesmo local sucessivamente.

Aqui há um valor frequentemente citado na literatura e em fontes de divulgação científica: erca de 40 ninhos/casais nidificando em rochedos marítimos no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina.

É importante notar que este número aparece em várias fontes derivadas de censos anteriores e pode não refletir exatamente a situação de 2024 ou 2025

O que existe são referências de campo e observações continuadas indicando "vários ninhos" distribuídos pelas arribas e pelos "palheirões" (rochedos isolados) ao longo de alguns quilómetros de costa.

(iv) Evolução ao longo dos censos

A tendência geral da cegonha-branca em Portugal foi de crescimento muito forte nas últimas décadas. Por exemplo:

  • em 2014 foram registados 11 690 ninhos ocupados em Portugal Continental durante o censo nacional;
  • em 2024 decorreu o VII Censo Nacional, mas os resultados finais nacionais ainda não aparecem facilmente acessíveis nas fontes públicas que consultei.

Para a população específica das arribas da Costa Vicentina, as referências históricas apontam para:

  • instalação inicial de poucos casais;
  • expansão gradual ao longo do século XX;
  • estabilização posterior em algumas dezenas de casais reprodutores.

(v) O que torna este local único?

A populaçãode cegonhas-brancas  da Costa Vicentina é considerada a única, c
onhecida no mundo (ou pelo menos da Europa),  que nidifica regularmente em arribas marítimas sobre o oceano (que podem chegar aos 40 metros).

(...) A cegonha-branca nidifica praticamente de norte a sul do país, sendo notoriamente mais comum a sul da bacia hidrográfica do rio Tejo, excluindo a serra de Monchique.

A norte ocupa a faixa litoral de forma quase contínua até Viana do Castelo e o interior ao longo da raia de Trás-os-Montes e Alto Douro e da Beira Alta, estando apenas ausente do distrito de Viseu.

É uma espécie generalista que utiliza um grande leque de habitats, como mosaicos de cereais de sequeiro, arrozais, pastagens e pousios, lameiros, montados abertos, mas também zonas húmidas como charcas, açudes, pauis, rios, ribeiras, lagoas costeiras e estuários.

Os ninhos são instalados em árvores (choupos, eucaliptos, pinheiros, freixos, azinheiras, sobreiros ou oliveiras), em edifícios (chaminés, telhados, ruínas, igrejas, silos), em postes de eletricidade, apoios dedicados e postes telefónicos ou escarpas fluviais.

Na costa sudoeste nidifica em falésias costeiras e palheirões, situação única na Europa. Pode nidificar tanto isoladamente como em colónias, quer monoespecíficas, quer partilhadas com garças e colhereiros.

É mais abundante no Alentejo e Ribatejo, regiões que concentram mais de 75% da população nacional. Os distritos de Beja, Évora e Setúbal são aqueles que apresentam as densidades mais elevadas a nível nacional.

É ainda muito abundante nos distritos de Castelo Branco e Faro e a norte, no baixo Vouga, na ria de Aveiro e no baixo Mondego.(...)


(Fonte: Excertos de Atlas das Aves Nidificantes de Portugal > Inês Catry > Ciconia ciconia, cegonha-branca) (com a devida vénia...)

O Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina identifica expressamente a nidificação da cegonha-branca em falésias e arribas marítimas como uma das características marcantes da região, destacando o Cabo Sardão entre os locais emblemáticos. ICNF explica ainda que essa adaptação terá resultado da escassez histórica de árvores altas e construções, sendo os rochedos isolados os locais mais seguros contra predadores.

O portal oficial Natural.pt (gerido pelo ICNF) refere expressamente "cegonha-branca a nidificar nos rochedos e arribas marítimas (caso único no mundo)".

É pena que os painéis interpretativos do sítio estejam completamente ilegíveis, inutilizados pela longa exposição ao sol, maresia, chuva e  demais intempéries. 

(Pesquisa > LG + Wikipedia + Natural.pt + Atlas das Aves Nidificantes de Portugal + IA (ChatGPT / Opern AI)

domingo, 31 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28062: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (5): Lagos, entre o Infante Dom Henrique e el-rei dom Sebstião, entre o "ice-cream" e a "bica escaldada"









Algarve > Barlavento > Lagos > 27 de maio de 2026

Fotos (e legenda): © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


Sem título. Ilustração: Luís Graça (1999)


1. Estou em Lagos, Barlavento, Algarve. Já não vinha aqui desde 1981. E mesmo quando estive em Tavira (em 1968), nunca aqui vim. Tenho, de um lado, a estátua de El Rei Dom Sebastião, datada de 1973, da autoria do João Cutileiro (1937-2021), e acho-a uma obra-prima da arte portuguesa do séc. XX; e por outro, a escassas centenas de metros, a estátua do Infante Dom Henrique, de estética "estado-novista", inaugurada em 1960 (é do escultor Leopoldo de Almeida, 1898-1975).

Lagos, apesar de tudo (do cilindro compressor do turismo e do camartelo camarário) ainda conserva um secreto encanto. E é um repositório da nossa memória.

Foi uma das nossas portas para o mundo, mas também uma das rotas da escravatura...Tal como o Cacheu, na Guiné. Visitei o museu. Como antigo combatente da guerra colonial, tive acesso de borla... Mas fico sempre "deprimido", ao puxar do cartão e ao lembrar-me que também faço parte desta história, desse "filme de longa metragem"..., a história, o filme do fim de um ciclo de 600 anos.

Estou num lugar que é, ao mesmo tempo, um bilhete-postal ilustrado do meu país e um palco de memórias incómodas.

 Lagos, com a sua luz branca que cega, o seu mar azul, a sua praça coberta de jacarandás em flor, as torres brancas das suas igrejas, o casario e os restos das suas muralhas. Mas Lagos é também um espelho das sombras, pesadelos, perplexidades, misérias e grandezas da História do meu país.

Por um lado, o Infante que abriu a primeira "autoestrada da globalização" e com ela o conhecimento, a unificação dos mares, continentes e povos, o comércio, mas também as portas ao tráfico de seres humanos (e que ficou com o seu "quinhão", do primeiro carregamento de 235 escravos, aqui aportados, em agosto de 1443, a pretexto de lhes querer "salvar as almas"!). E, por outro, o rei, imberbe, "rambo", que se perdeu em Alcácer Quibir (e que nos perdeu).

E em plano de fundo, a guerra colonial que me marcou a mim e a tantos outros rapazes da minha geração, como um sacrifício estúpido, gratuito e inútil. 

 Pergunto-me todos os dias: para que é que morreram dez mil dos nossos na Guiné, Angola e Moçambique ? E as dezenas de milhares, do MPLA, da UPA, da FNLA, da UNITA, do PAIGC, da FRELIMO, que matámos ? E as centenas de milhares de angolanos, guineenses, moçambicanos e timorenses que se mataram uns aos outros, em guerras fratricidas no pós-independência ?

Conheço o peso da história do meu país na pele (e não só nos livros, é no corpo, é na alma). Não é só a estátua do D. Sebastião ou a do Infante que me incomodam, é o que elas representam. 

Afinal, a história não é só "feia" no património edificado (temos, de resto tantos "mamarrachos" por esse país fora, em granito, em mármore, em bronze)... É "feia" naquilo que ela faz connosco, naquilo que nos obriga a carregar, nas nossas memórias.

A história não é o "passado", é um fio que se estende até hoje e se prolonga no futuro: nas desigualdades, nas cicatrizes da guerra, nas narrativas desencontradas, no turismo que devora a alma dos homens e a identidade dos lugares, na "gentrificação" da nossa terra.

Apesar de tudo, encontro beleza na arte de um Cutileiro (que, ironicamente, imortalizou um rei que eu sempre detestei). E manifestei o meu apreço ao município de Lagos por ter sabido preservar o antigo mercado de escravos. Pelo menos o "casco velho" de Lagos, não foi totalmente devorado pelo desastre  urbanístico,  a ganância imobiliária e o capitalismo selvagem.

A estátua do Infante D. Henrique é pesada, afirmativa, hierática. O corpo compacto, o gesto imóvel, a monumentalidade austera: tudo nela fala a linguagem estética do Estado Novo. Não é apenas uma representação histórica; é um "programa ideológico em bronze". 

Inaugurada na efeméride dos 500 anos da morte do Infante Dom Henrique (1460-1960), ela diz muito (até pelo que omite) sobre o navegador visionário, a "escola de Sagres", o império, a "missão civilizadora", o “destino atlântico”, a honra e a glória dos grandes feitos marítimos, bla- lá.... 

Mas, talvez até mais,  ela fala de um regime que se "apoderou despudoradamente" dos nossos heróis, dos nossos maiores... 

De qualquer modo, precisamos de mitos fundadores. Todos os povos precisam de (e cultivam) os mitos-fundadores.

E o facto de eu (e o meu amigo Jaime Silva, antigo paraquedista que fez a guerra de Angola) ter entrado de borla no museu, como antigo combatente, também tem algo de simbólico: estou aqui, de algum modo, a reclamar o meu discreto  lugar na narrativa sobre o making of" do império, e a exigir que a memória não seja apagada.

Faço parte desta história, não como herói, nem como vítima passiva, mas como simples peão,   como alguém que ainda cá está, aos 79 anos, um "marginal-secante" que também reivindica o direito de não deixar que a estátua de um rei ou de um infante apaguem as vozes dos que "ficaram para trás" (navegadores, soldados, marinheiros, fidalgos, mercadores, missionários, mas também pessoas escravizadas, e nomeadamente negros de África). 

Recuso-me a glorificar o passado sem o olhar de frente, não quero fazer tábua rasa nem das nossas misérias nem das nossas grandezas. Que as temos, como qualquer outro povo.

O que fazer com a minha raiva e minha melancolia, perdido em Lagos, numa multidão de turistas que come "ice-cream" e que está aqui, uns dias, no Algarve português para carregar as "baterias da felicidade" ?

Depois da difícil tarefa que é sempre estacionar o carro nestes lugares (coitado do Jaime!), caminho de  canadianas, até à Praça Gil Eanes e encontro o "meu velho conhecido" D. Sebastião, do João Cutileiro.

Fotografo a estátua: aqui já não há pose imperial. Nem bronze triunfante. Nem honra nem oria, Nem rumo nem destino. Há apenas a  beleza e a fragilidade do mármore. Há alienação. Há um fantasma. O nosso fantasma nacional (depois do Velho do Restelo). 

O rei, despojado da parafernália guerreira, o helmo inútil  a seus pés, perdido no deserto, num campo de batalha, a batalha dos três reis, mas que ainda há de voltar numa manhã de nevoeiro. A Lagos, donde partiu. 

O contraste não podia ser mais brutal: o Infante, empoderado, altivo,  é a narrativa da ascensão; D. Sebastião, a nossa má consciência da queda, do desastre, da culpa, da impotência.

O Infante foi uma figura da nossa História que sempre me acompanhou desde os bancos da escola até à Guiné: repetida "ad nauseam". O Infante tornou-se uma liturgia cívica do Estado-Novo. Dom Sebastião era enxotado para o sótão dos nossos pesadelos, o que deixou a porta escancarada á dinastia dos Filipes de Espanha.

O Infante Dom Fernando e el-rei Dom Sebastião: o alfa e o ómega, o primeiro e o último atos da nossa tragicomédia. (Toda a História dos homens tem tragédia e comédia; a nossa também tem.)

Preciso de um café. Entro numa gelataria. Leio na parede, em letras garrafais: “You can't buy happiness, but you can buy ice cream, and that's kind of the same thing.” (em português: “Não podes comprar a felicidade, mas podes comprar um gelado, o que é quase a mesma coisa")...

Reconheço a frase popularucha, 'kitch', desde "Berlim Leste", é uma variante do provérbio que os ricos gostam de repetir, caritativamente, aos pobres: "Meus filhos, o dinheiro não compra a felicidade"... Uma outra variante decorava o meu quarto de hotel de 3 estrelas, quando lá voltei em março de 2015, a Berlim, na parte leste onde viviam os alemães de 2a.

Não gosto de gelados. Mas a bica veio fria (e eu pedira-a escaldada), ao fim de meia-hora. Há três bichas: a da esplanada, a dos gelados e a das "bicas" (para os clientes da terra, lacrobrigenses, cada vez mais raros, e os turistas nacionais como eu). 

O empregado de mesa, "indostânico" (?), não sabe o que é uma "bica escaldada", e sua, isso, sim, em bica, com tanta azáfama e calor matinal. Não tem quatro braços, como as poderosas deusas da sua terra.

O Largo do Infante fica junto do antigo mercado de escravos, um dos primeiros espaços de comércio esclavagista da Europa moderna.  O Museu de Lagos  é de visita obrigatória. Não existia em 1981.

 A História raramente é limpa quando regressamos aos lugares décadas depois. Os sítios acumulam não só pó, mas também memória pessoal, enviesamento, propaganda, ruído, silêncio, culpa, nostalgia, perda. 

E às vezes o que sangra não é exatamente a História nacional, é a (re)descoberta da distância entre aquilo em que nos ensinaram na escolinha, quando éramos "meninos e moços" e  aquilo que hoje vemos (ou que nos deixam ver).

Voltar 45 anos depois a Lagos  é  como encontrar uma versão antiga de mim  próprio, a caminhar penosamente pelas ruas empedradas. As estátuas já lá estavam, em 1981,  a do Infante nem sequer dei conta. As estátuas permanecem, mas quem as olha já não é o mesmo. Eu já não sou o mesmo. 

Desta vez, nem sequer consegui comer um xarém de conquilhas. Nem carapaus alimados. Nem um arroz de lingueirão. E as ameijoas boas da Ria Formosa estavam pela hora da morte: não tive coragem de as comprar, no mercado municipal de Portimão, a 38 euros o quilo. 

Há um Algarve de 1968 (quando fiz tropa em Tavira) que já não existe. Tal como a Lagos de 1981. Tal como o meu país e o mundo, que  já não são os mesmos de quando nasci, em 1947. 

Acho que devia ter pedido um "ice-cream" em vez da "bica escaldada".




Lagos, 1981 > Junto à estátua do rei Dom Sebastião, de José Cutileiro (1973): da esquerda para a direita, Gusto (meu cunhado), Filipe (meu sobrinho), Cristina (sobrinha da Nita e da Alice), Nita (1947-2023), Joana (minha filha), Chita (Alice, minha mulher),  Béu (minha mana mais nova)… (Ainda estavam para nascer o João, meu filho, e o Tiago, meu sobrinho, hoje ambos médicos). Dizem que a estátua nunca foi oficialmente inaugurada. De visita a Lagos, em 1973, o último presidente da República do Estado Novo, fez questão de a ignorar completamente.

Foto (e legenda): © Luís Graça  (2026). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].
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Nota do editor LG:

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28055: Efemérides (391): Há 57 anos, a 24 de maio de 1969, partiu o T/T Niassa para o CTIG - Parte II: "o cruzeiro das nossas vidas"




Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.
Fontes iconográficas: fotos de Luís Graça, Humberto  Reis 
e Luís Nascimento / Joaquim Bessa, 
Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné


1. Um velho poema meu... Quando fui para a Guiné no navio misto, de carga e passageiros, "Niassa", com pouco mais de 150 metros de comprimento. e 10,7 mil toneladas de arqueação bruta... Levava 1735 homens para a guerra (fora a tripulação, que era de c. 130)... 

Durante anos recusei cruzeiros, aliás só fiz um, à Grécia, antes da pandemia,  para "recordar"... Mas sou "crítico" dos cruzeiros turísticos... Ao primeiro, que fiz, em 24-29 de maio de 1969, no T/T Niassa, chamei-lhe, por ironia,  "o cruzeiro da minha vida"...Já não sou mais o mesmo de há meio século atrás...Nem poderia sê-lo. Mas aqui vai, em jeito de filme do tempo do cinema mudo, com intertítulos, uma evocação "poética" desse cruzeiro, em que "viajaram" também amigos que depois fiz para a vida como o Humberto Reis, o Tony Levezinho,  o António Fernandes Marques, o sargento Piça, o Arlindo T. Roda, o Luciano Severo de Almeida, e tantos outros, alguns dos quais vim aqui a reencontrar no blogue como o Carlos Fortunato, o Eduardo Estrela, o José Nascimento, o Luís Nascimento, etc.

 

Quando o Niassa apitou três vezes

por Luís Graça


Uma estranha maneira de dizer adeus,
um estranho povo este
que vem ajoelhar-se, no cais de partida,
não em oração para aplacar a ira dos deuses, mas vergado,
vergado à toda poderosa razão de Estado.

A tentacular força centrífuga
que, de há séculos, 
te leva os filhos teus, para fora,
paridos e expulsos do ventre da mátria,
para longe, bem para longe, muito para lá do mar.

Uma despedida breve,
com lágrimas salgadas no rosto
e lenços brancos em fundo preto.
Todas as despedidas são breves e tristes:
o momento em que o Niassa apita três vezes
e levanta a âncora,
nunca se poderia eternizar,
diz o capitão de terra, ar, mar e guerra,
lencinho ao pescoço, cheirando a Vat(e) 69, 
ontogenético, fotogénico, cinéfilo,
garboso, charmoso, glamoroso
pronto para a ação
... na mesa do king, do bridge ou da lerpa.

Passado o Bugio,
deixado para trás o velho do Restelo
de que há um pouco em todos nós,
desvanecido o azul da serra de Sintra,
há um briefing às cinco da tarde,
já em velocidade de cruzeiro,
no mar alto que outrora foi português.

O anúncio é do capitão,
muito pouco ou nada miliciano,
que serve de mordomo, pequeno e burguês.
De megafone em punho,
não vá alguém sabotar a instalação sonora do navio.

Vai na segunda comissão, o oficial provinciano,
que nunca ouviu falar da batalha de Dien Bien Phu
nem sabe onde fica a ilha do Como.
Nem o onde nem o como nem o porquê
nem muito menos o até quando.

E o filme da noite é uma comédia, 
do cinema mudo,
acrescenta o nosso primeiro,
que no T/T Niassa faz de porteiro
ao bar Cretcheu, Guiné.
Um gajo bacano, num país de bacanos, fulanos e sicranos,
de soldados rasos, primeiros cabos, furriéis, alguns forcados, 
e segundos sargentos, mangas de alpaca.

Uma tragicomédia, escreverás tu no teu diário.
Cadé os oficiais ?
Cadé a elite da nação ?
Onde estão os filhos-família,
a ínclita geração,
os primeiros, a fina flor, os morgados,
os cavaleiros andantes, os primogénitos,
os palmeirins, os fidalgos, 
a casta, a raça apurada,
o sangue azul, o pedigree, 
os Gamas e os Camões,
os melhores de todos nós ?
... Morreram todos em Alcácer 
Quibir. 

Lisboa revista, revisitada, revistada,
em filme de oito milímetros,
a preto e branco ou a preto e negro, dizes tu, corrosivo,
uma só nação, valente mas ferida mortalmente,
ironiza alguém.
O Niassa colonial na azáfama do seu vai-e-vem
antes de ir parar à sucata,
inglória a sucata da história que tu perdeste
aos dezoitos anos, quando deste o teu nome para as sortes.
Estranha palavra essa, a das sortes,
que rima com desnortes e com mortes e com fortes,
que dos fracos não reza a história.

A despedida breve e triste do Niassa,
o teu primeiro e único cruzeiro da vida,
e ainda mais triste é o filme, sem som,
sem palavras desnecessárias, a preto e branco,
que alguém terá feito no cais das sete partidas,
com a noiva que ia vestida de branco 
e de xaile preto, a louca, por cima dos ombros.
Dizem que levada em ombros, a espernear,
pela polícia militar.

A ponte, ainda reluzente, de Salazar, o velho,
o velho abutre que alisa as suas penas,
dirás tu, Sophia, pitonisa de Delphos,
quase morto mas não enterrado.
Os últimos golfinhos do Tejo,
a última fragata de vela erguida,
a última caravela,
a última nau do cais da Ribeira,
o último império que ficou por haver,
o último marinheiro sem terra,
sinal de tempestade,
o último uísque marado
que ficou por beber, de um trago
numa espelunca do  Cais do Sodré, amargo,
o mudo do Cristo Rei em terra
que outrora foi dos infiéis,
o Terreiro que continua do Paço, não do povo…
Lisboa e o seu casario, branco, sujo,
o filme a preto e branco, riscado,
um gato preto à janela,
sinal de mau agoiro.

Lisboa... e lá longe a Guiné,
a 4 mil km de distância, 
Lisboa, enfim, com as suas ruínas, pré-pombalinas,
o poço dos mouros, o poço dos negros,
o lundum, a umbigada,
a procissão da Nossa Senhora da Saúde,
mais a Santa Inquisição,
zelando pela pureza da raça e do sangue,
zurzindo corpos e almas,
o Cemitério dos Prazeres ao alto,
com os seus altos ciprestes negros,
os mastros dos navios da carreira colonial,
o império por um fio, dental,
a vida, ainda curta, que se recapitula, de fio a pavio,
no último comboio da noite
que veio do campo militar de Santa Margarida.

Ah!, e os jacarandás que, em fins de maio, já choram,
de lágrimas lilases,
e as santas das nossas mães que ficaram em casa,
a acender a vela à santa das santas,
a tecer o lenço de enxugar lágrimas,
um fado que tu ouviste numa tasca do Bairro Alto, 
e que já não era batido nem dançado nem cantado,
um fado apenas gemido, sussurrado.

Ordeiros os soldados,
como os cordeiros da matança da Páscoa,
anhos, dizem no Norte, 
alinhados, no Cais da Rocha Conde de Óbidos,
como os elétricos amarelos
que vão para a Cruz Quebrada,
empilhados, aboletados, requisitados
às mães para servir a Pátria,
o pai-patrão que lhes cobra o dízimo
em sangue, suor e lágrimas.

Mudos, agrilhoados, os básicos,
uns refratários, outros desertores,
cozinheiros, magarefes, corneteiros,
apontadores de dilagrama,
municiadores de metralhadora,
desenfiados, traidores, atiradores,
cangalheiros, sacristães, capelães,
barbeiros-sangradores, 
sapadores, pulhas, coirões,
coveiros, escriturários, bazuqueiros,
safados, bufarinheiros, cavaleiros,
trolhas, cavadores de enxada,
infantes, artilheiros, maqueiros,
heróis de torre e espada…

Coitadas das mães que tais filhos pariram,
diz a letra do ceguinho,
subindo o portaló, o cadafalso,
com um nó na garganta mal disfarçado,
os lenços brancos como em Fátima no 13 de maio.
Algumas bandeiras verdes-rubras,
poucas e loucas, que os tempos não são
de exaltação patriótica.
O hino canta-se em voz de cana rachada,
em disco riscado
por senhoras, poucas e roucas,
do Movimento Nacional Feminino.

A mesma atitude, admirável, de patética resignação
perante o arbítrio dos deuses
que tudo pedem e podem, diz o capelão,
cheio de unto e de virtude,
que este é um povo religioso
porque tem o sentido do pathos,
leia-se: da tragédia inelutável,
acrescenta o bispo de merda…suma.

Senhora Nossa, rogai por nós, pecadores,
protege-nos, das minas e armadilhas,
dos fornilhos e das bailarinas,
das canhoadas e roquetadas,
das morteiradas, dos estilhaços
e dos tiros de "costureirinha",
protege-nos do IN, leia-se inimigo,
dos esquentamentos e das sezões,
da mosca tsé-tsé e do mosquito anapholes,
dos ataques de abelhas e das formigas carnívoras,
mas também do cone de fogo
das nossas bazucas e canhões sem recuo,
das piçadas e dos louvores dos nossos comandantes...
Livrai-nos sobretudo de nós mesmos,
soldados malgré nous, soldados à força,
arrebanhados, arregimentados, requisitados,
condenados, ameaçados, camuflados,
acondicionados no porão como bestas
que vão para o matadouro.
Livrai-nos, Senhora Nossa,
da fome, da peste e da guerra,
e do marechal da nossa terra
que nos manda para tão longe.

Lisboa e as suas sete colinas
perdem-se na linha de água.
Puseste o combate do possível
na tua agenda de expedicionário da Guiné.
Puseste o fio com a medalha de ouro
ao peito, que te deu a tua namorada, coitada.
Não, não usas a cruz, o crucifixo, o amuleto,
não vais para a guerra santa,
não, senhor capelão-mor,
alguém há de rezar por ti, camarada,
para que voltes são e salvo.
Do regulamento é apenas a chapa de zinco,
com o número mecanográfico 13151468,
e o picotado ao meio,
para mais facilmente ser cortada em duas partes
que seguirão caminhos distintos,
tudo isto face ao risco, bem real e concreto,
de tu morreres longe, bem longe
da tua casa, da tua pátria, para lá do mar,
em terra que nunca te viu nascer.

Descansa, camarada,
alguém fará o teu espólio,
cerrará os teus dentes,
fechará os teus olhos,
engraxará as tuas botas,
comporá os atacadores e a boina,
e porá um moeda na boca
para pagares a viagem ao barqueiro Caronte,
no caso de morreres pela Pátria,
ainda jovem, belo e imberbe,
nas bolanhas, rias ou matas da Guiné

Levarás contigo a pedra-chave
que te liga ao além,
uma chapa de zinco, picotada ao meio,
que outrora era de xisto ou de grés,
entre o teu antepassado
calcolítico, castrejo, romanizado.
Ironia da história: 
também já foste escravisado, colonizado,
e nem a língua dos teus avoengos lusitanos chegou até ti.

Respeitaremos a tua última vontade,
lavrada no cimento fresco do teu abrigo:
Camaradas (que colegas é só nas putas!,
diz o pícaro do sargento Piça):
se eu morrer aqui,
que me enterrem,
numa anta do meu país megalítico!



A bordo do T/T Niassa,
a caminho da Guiné,
24-29 de maio de 1969.

Visto, revisto, aumentado e melhorado,
Reino dos Algarves, Portimão, Praia do Vau, 26  de maio de 2026
 
__________________

Nota do editor LG:

sábado, 23 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28048: Manuscritos(s) (Luís Graça) (290): "Palram pega e papagaio, / E cacareja a galinha"... Uma brincadeira poética com sugestões ludopedagógicas para avós e netos...






O manual escolar mais famoso do Estado Novo. Da autoria de Barros Ferreira.4ª edição, Porto Editora, 1958. Reimpressão, Editora Educação Nacional, janeiro de 2008.  Ilustrações do talentoso artista "Emmérico", Emérico Hartwich Nunes, ou Emmérico Nunes (1888-1968), um dos pioneiros da banda desenhada, do humorismo gráfico e do cartunismo em Portugal. Era o manual mais "ideológico" da nossa instrução primária, mas era também aquele de que eu mais... gostava.  A criança é um "livro aberto", à partida sem "preconceitos" (muito menos ideológicos)...



1. Este poema, "Vozes de animais" (ou "vozes dos animais"), faz parte da minha infância, da minha escola, da minha memória escolar: devo tê-lo lido e memorizado aos 8 ou 9 anos... Mesmo com palavras de "sete e quinhentos"!... Aliás, faz parte da memória de todos nós.

É de um poeta (menor...) do séc. XIX, português, da escola romântica.

Fiz questão de oferecê-lo, à minha minha neta, Rosinha, que hoje faz 16 meses...  e adora ouvir o avô a imitar as vozes dos animais... Quero que ela, aos 6/7 anos, já o saiba recitar de cor... (Eu nunca fui bom a recitar poesia, de cor... Tenho que ter a cábula, o papel...(

Acho este poema uma pequena relíquia da nossa velha escola primária, que atravessou regimes (Monarquia, República, Ditadura Militar, Estado Novo...).

A malta da nossa geração, nascida já no pós-guerra, aprendeu-o de cor, como uma verdadeira cantilena iniciática da nossa bela língua portuguesa. E os "burros" (coitados!), de pé descalço, os que ficavam, por discriminação, nas carteiras de trás, esses, tinham que o aprender de cor,  à força de reguadas, puxões de orelha ou vergastadas com o ponteiro da senhora professora...

O poema "Vozes dos animais" é da autoria de  (ou é atribuído a) Pedro Dinis (c. 1829–1896), de quem se diz que foi  professor e pedagogo, além de diretor da Biblioteca Nacional de Lisboa. 

De seu nome completo, Pedro Guilherme dos Santos Diniz, este poema terá sido publicado no" Livro de Ouro para Uso das Escolas de Educação (s/l, 1855). O autor também foi tradutor de obras do Júlio Verne. Terá igualmente usado o pseudónimo literário Amaro Mendes Gaveta. Estudou em Coimbra, na época ainda não havia a Universidade de Lisboa (criada, tal como a do Porto, em 1911).

Os versos foram depois recolhidos por Antero de Quental,  no "Tesouro Poético da Infância" (1883). E passou a integrar os manuais escolares da época, como o Livro de Leitura da 3ª Classe, livro único, no Estado Novo.

Qual a razão do seu sucesso ? Não foi tanto pelo seu “valor literário” como pelo seu extraordinário valor ludopedagógico. Há nele várias coisas nossas, da pedagogia portuguesas, do João de Deus: o gosto antigo pela enumeração; a musicalidade, a lengalenga dos contos e romances tradicionais; o prazer das palavras raras, eruditas, difíceis, a que chamávamos, no meu tempo de escola, "palavras de sete e quinhentos" (sete escudos e cinquenta centavos), como “crocita”, “regouga”, “chilrar”, “balidos”, “vagidos", "libando", etc.)

Estes versos reforçam a ideia de que a língua materna é um tesouro sonoro. E que para ser viva tem de ser falada. Tal como a poesia, que tem de ser partilhada, dita em voz alta, para pequenos auditórios (como aconteceu há dias, na minha terra, no "festival do leitor", "Livros a Oeste 2026").

O poema "Vozes dos Animais" remete também para o "saber enciclopédico": estão lá os principais animais "domésticos" e "selvagens" do nosso imaginário. E as diferentes e espantosas vozes animais. De uma penada, com umas tantas quadras, ensinava-se,  à criançada,  zoologia, vocabulário, fonética e memória.

Além disso, o poema funciona muito bem porque nasce do jogo da imitação. Não vou “explicar” à Rosinha o que é um animal ruminante, como a vaca, imito ou reproduzo a sua voz. E isso toca diretamente o mundo da infância. Antes da criança compreender conceitos (abstratos) (vaca e animal ruminante), reconhece sons (concretos), a onomatopeia: "muuuu"...

A Rosinha, aos 16 meses, já "pintainha": está exatamente nessa idade mágica em que o mundo entra pelos ritmos, pelas vozes, pelos sons, pela onomatopeia, pelas repetições.  O "vovô" que “mia”, "pia", “muge”, “zurra”, "cacareja" ou “cucurica” está a fazer o mesmo que os antigos contadores de histórias, as velhas amas, as mães de leite faziam há séculos: transformar linguagem em jogo afetivo.

E há uma ternura involuntária do final: os "vagidos" (sic) do bebé.. A criança aparece ali como mais um animalzinho da "criação", na "arca de Noé". Depois vem a moral escolar (que era "criacionista", reproduzindo a mitologia bíblica da nossa cultura judaico-cristã, não integrando os contributos da biologia e demais ciências da vida e da natureza: “A fala foi dada ao homem, /Rei dos outros animais…”),

Omitindo este último verso (que é anacrónico, obsoleto, antropocêntrico), o resto do poema continua vivo porque pertence ao território universal da infância, da oralidade, da magia, do encantamento.

Espero que a Rosinha goste ou venha a gostar mais tarde, quando tiver mais entendimento das coisas da vida e do mundo. Ainda não irá memorizar os versos; mas ficará, sem dúvida, no ouvido esta lengalenga, a música da voz do "vovô a fazer “miauuuu”, “méééé”, "fuuuu", "ão-ão-ão", "muuuu", “có-có-ró-có-có. E isso, muitas vezes, é o princípio da poesia e do gosto pela poesia.

2. Chamo a atenção (dos pais e avós) para a "forma" e o "fundo" do poema. Vão, adicionalmente, algumas sugestões ludopedagógicas.


(i) estrutura / forma: 
  • tem uma forma fixa: é composto por estrofes de 4 versos (quadra), com rima em geral cruzada (ABAB); 
  • ritmo cantado e memorizável, ideal para crianças;
  • métrica: versos heptassílabos (7 sílabas métricas ou "redondilha maior")  com cadência simples e musical, facilitando a recitação;
  • refrão implícito: a repetição de estruturas como "Pia, pia o pintainho" ou "Late e gane o cachorrinho" cria um efeito de lista rítmica, quase como uma canção de embalar.

(ii) tema / conteúdo:

  • catálogo onomatopaico: o poema é um inventário lúdico dos sons dos animais, desde os domésticos ("cacareja a galinha", "mia o gato") aos exóticos ou selvagens, que só se podem observar no jardim zoológico ou na televisão ("ruge o leão", "bramam os tigres");
  • cada verso imita o som do animal (onomatopeia), o que o torna interativo, e que é perfeito para a nossa Rosinha, que adora ouvir e imitar logo as vozes;
  • antropocentrismo:  o poema termina com uma reflexão moralizante: "A fala foi dada ao homem, / Rei dos outros animais: / Nos versos lidos acima / Se encontra, em pobre rima, /As vozes dos principais.
  • aqui, o autor deixa trair a sua conceção antropocêntrica da natureza, a superioridade humana no topo da vida animal (preconceito típica do século XIX ocidental) e a diversidade da criação divina, embora sempre com uma intenção pedagógica e um tom afetuoso (que não chocam, nesta idade).
(iii) linguagem / estilo:
  • léxico simples: vocabulário acessível e concreto, adequado a crianças; mesmo as palavras (novas) como "arrulham" (pombos), "regouga" (raposa), ou "zurrar" (burro) são preciosismos linguísticos que enriquecem o poema sem o tornar abstruso ou  complexo;
  • adjetivação expressiva: termos como "sagaz raposa", "tímida ovelha", "mocho agoureiro" ou "rola inocentinha" infantilizam e humanizam os animais, dando-lhes personalidade;
  • humor e ironia: o poeta brinca com a limitação (e a utilidade) de alguns animais: "O pardal, daninho aos campos, / Não aprendeu a cantar; / Como os ratos e as doninhas / Apenas sabe chiar"; (aqui, pode haver um toque, leve, de crítica social: o pardal do telhado que, como o rato, é um "intruso" nos campos; há um preconceito ecológico: o pardal-telhado e o rato do campo (contrariamente ao da cidade...) têm um papel importante na dinâmica dos ecossistemas
(iv) contexto histórico
  • intenção pedagógica: o poema foi escrito para livros escolares de meados do séc. XIX, com o objetivo de transmitir às crianças  conhecimentos sobre a  natureza, a vida, a linguagem e a moral; era comum na época usar a poesia como ferramenta de memorização e disciplina;
  • influência da escola romântica: embora Pedro Dinis não fosse um grande poeta e muito menos um  romântico (como o foram Garrett ou Herculano), o poema reflete o gosto romântico pela natureza e pela infância como estado, primordial,  de pureza.

Sugestões para a Clara (que tem 6 anos e meio e já sabe ler) e para os papás da Rosinha (e até para a educadora da Rosinha):


(i) podes ler em voz alta e fazer uma pausa para ela depois imitar os sons ("Muge a vaca... Muuu!", "Cucurica o galo... Cocorocó!"); a repetição e as rimas fáceis ajudam-na a reter palavras; a isto chama-se Interatividade;

(ii) os sons dos animais ativam a sua imaginação e associam a leitura à ideia de brincadeira ou jogo (estimulação sensorial);

(ii) ao oferecer este poema à neta, os avós estão a passar um pedaço da sua infância para ela, criando uma ligação emocional entre eles e a neta (tradição familiar);

(iv)  o poema ensina o respeito pela natureza e a diversidade dos seres vivos, valores importantes para a geração  dos nossos netos;


Mais sugestões:

(v) vamos comprar e oferecer  o livro "Vozes dos Animais", da Luísa Ducla Soares (com ilustrações Sandra Serra); 

(vi) a Clara pode ajudar a mana a criar um livrinho com o poema e desenhos dos animais, autocolantes ou  imagens extraídas  da Net;
 
(vii) podemos gravar a nossa voz  (do avô, da Rosinha e da Clara ) a ler o poema (com os sons dos animais) no gravador do telemóvel;

(viii) podemos inventar um jogo de adivinhas: lemos um verso ("Grasna a rã...") e pedimos à Rosinha  para imitar o som ou apontar para a imagem da rã.

Dedicatória: 

"Piu-piu, o que mais quereis ?
... P'ra nossa linda Rosinha, 
Que meses faz dezasseis,
Mas que há muito pintainha."

("pintainha"= do verbo intransitivo, "pintainhar", imitar o pio dos pintainhos,  mover-se como os pintainhos)

Alfragide, 23 de maio de 2026, os avós Luís & Alice
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Vozes dos Animais
 
Palram pega e papagaio
E cacareja a galinha,
Os ternos pombos arrulham,
Geme a rola inocentinha.

Muge a vaca, berra o touro,
Grasna a rã, ruge o leão,
O gato mia, uiva o lobo,
Também uiva e ladra o cão.

Relincha o nobre cavalo,
Os elefantes dão urros,
A tímida ovelha bala,
Zurrar é próprio dos burros.

Regouga a sagaz raposa,
Brutinho muito matreiro;
Nos ramos cantam as aves,
Mas pia o mocho agoureiro.

Sabem as aves ligeiras
O canto seu variar:
Fazem gorjeios às vezes,
Às vezes põem-se a chilrar.

O pardal, daninho aos campos,
Não aprendeu a cantar;
Como os ratos e as doninhas
Apenas sabe chiar.

O negro corvo crocita,
Zune o mosquito enfadonho,
A serpente no deserto
Solta assobio medonho.

Chia a lebre, grasna o pato,
Ouvem-se os porcos grunhir,
Libando o suco das flores,
Costuma a abelha zumbir.

Bramam os tigres, as onças,
Pia, pia o pintainho,
Cucurica e canta o galo,
Late e gane o cachorrinho.

A vitelinha dá berros,
O cordeirinho balidos,
O macaquinho dá guinchos,
A criancinha vagidos.

A fala foi dada ao homem,
Rei dos outros animais:
Nos versos lidos acima
Se encontra, em pobre rima,
As vozes dos principais.

 Pedro Diniz (c. 1855)

(Revisão / fixação de texto: LG)

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 15 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28021: Manuscrito(s) (Luís Graça) (289): Talvez o mundo fosse mais... amigável: poema para dizer hoje, ao vivo, no festival literário "Livros a Oeste 2026", Lourinhã